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Segunda-feira, 9 de julho de 2001
Anti-semitismo e comunismo
Nas décadas 30/40 do passado século, como aliás até hoje, muita gente ocasionalmente associa os judeus ao comunismo. Essa pseudo-equivalência contribuiu, nos países democráticos do Ocidente e, também, no Brasil, para agravar o anti-semitismo e causar imensos danos à sorte dos judeus durante a 2ª Guerra Mundial. Encurralados na Europa ocupada pelos nazistas, sem possibilidade de fuga e vitimados pela perseguição de que resultou a Shoá, 6 milhões pereceram. Que uma proporção considerável de judeus tivesse sido comunista na primeira metade do século, não há dúvida. Marx e Trotski eram judeus, ainda que o primeiro filho de luteranos convertidos. Majoritários eram os judeus entre os velhos bolchevistas que o tio Zeca Stalin iria eliminar, um por um, com a possível exceção de seu ex-sogro Lazar Kaganovitch. No curto governo terrorístico que Bela Kuhn impôs à Hungria, em 1919, dominavam os judeus, inclusive o stalinista mais lambeteiro, György Lukacs, que posteriormente se tornaria famoso entre os intelectuários esnobes. No "Marxismo Tardio" da Escola de Frankfurt se salientaram israelitas alemães sobreviventes. No Brasil, a participação judaica na malfadada "intentona" de novembro 1935 limitou-se à mulher do pseudo "Cavaleiro da Esperança", Olga Benário, agente da OGPU, o serviço secreto soviético interessado em controlar o movimento. O golpe inepto dos comunas teve como conseqüência facilitar os preparativos da ditadura "positivista" de Getúlio, assim como vacinar nossas Forças Armadas contra a perversa ideologia.
Contudo, é profundamente errônea a versão conspiratorial dos falsos "Protocolos dos Sábios de Sião", vulgarizada pelos nazistas, de serem os judeus os principais promotores do marxismo. No Brasil, alguns raros calhordas ainda pensam desse jeito, inclusive entre os próprios judeus. A verdade é que, nesse século 20, que talvez tenha sido o mais ilustre do judaísmo e assistiu ao renascimento de Israel, o "Terceiro Templo", foi o "Povo do Livro" estraçalhado, como todos os demais europeus, pelas discórdias ideológicas que o ensangüentaram. Israel foi fundado por pioneiros centro-europeus de convicções nacional-socializantes, mescladas de um vago romantismo rural no estilo tolstoiano. O movimento dos kibutzim, hoje em declínio, é expressão dessa tendência. Uma personalidade notável como a do escritor Arthur Koestler reflete o esquartejamento filosófico que sofreu esse povo, dotado de tão admiráveis qualidades intelectuais. A mais espantosa metamorfose, como uma das experiências sociais mais impressionantes do século, foi a transformação de judeus da Diáspora numa nação de 5 milhões de agricultores que fertilizaram o deserto e enfrentaram vitoriosamente 100 milhões de árabes hostis à sua volta.
O destino do Ocidente democrático, contudo, pode haver sido decidido pela vitória das potências anglo-saxônicas contra o totalitarismo, de 1939 a 1989, em grande parte com a ajuda dos judeus. Para esse resultado, a começar com Einstein e Fermi, contribuíram seus cientistas numa proporção surpreendente, como principais artífices da bomba. A física moderna, quase que se poderia dizer, foi uma ciência judaica. Mas, como paradigma das contradições ideológicas acima apontadas, ofereceríamos a controvérsia entre o esquerdista Robert Oppenheimer, que dirigiu o projeto Manhattan graças ao qual foi o Japão mais rapidamente derrotado, e Edvard Teller, o imigrante de origem húngara que, após o conflito, insistiu na urgência do desenvolvimento da bomba (de fusão) do hidrogênio, assegurando a superioridade militar americana nesse terreno decisivo da guerra fria.
Além da ciência, a grande contribuição dos judeus para o pensamento liberal registra nomes ilustres como os de Popper, Arendt, Isaiah Berlin, Aron, Bauer, Friedman, Ayn Rand e Rothbard. O pensamento conservador americano é igualmente sustentado por uma plêiade notável de intelectuais como Kristol, Podhoretz, Safire, Himmelfarb e Midge Decter. O papel dos judeus na criação do movimento da modernidade globalizante, sob todos seus aspectos, não pode assim ser menosprezado nem tampouco distorcido por preconceitos ignóbeis.
J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br
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