|
Segunda-feira, 5 de março de 2001
Dilemas de um país talvez sério
Tenho em mãos três documentos contraditórios. Um é uma análise da "Falência Econômica do Brasil", com dados absolutamente alarmantes sobre o crescimento acelerado da dívida pública. O segundo é uma reportagem, de fonte estrangeira imparcial, sobre o que aconteceu no "Fórum Social" de Porto Alegre. Dezeseis mil patetas, baderneiros e agitadores, cínicos ou desvairados, colocaram este país na vanguarda da contra-revolução marxista que combate o liberalismo e a globalização. A idéia desse grupo, definitivamente "pouco sério", embora bastante perigoso, é que por bem ou na marra vão tomar conta do poder em 2002.
O terceiro documento é uma carta ao presidente Bush, sob o patrocínio do Council on Foreign Relations (CFR), uma prestigiosa ONG de Washington simpática ao Partido Republicano. Este memorando é assinado, em primeiro lugar, pelo sr. Diego Asencio, um espanhol naturalizado americano que foi embaixador em Brasília e confirma o que disse o ex-embaixador Harrington, que acaba de deixar o cargo, numa recente entrevista à Veja. Quatro brasilianistas dos mais eminentes e 16 empresários, professores e intelectuais com interesses em nosso país se responsabilizam igualmente pelo documento. O curioso é que a carta do CFR foi apenas superficialmente mencionada por alguns órgãos da imprensa, porém não integralmente reproduzida - presumo que por influência da censura exercida pelo petismo, "gramscianamente" infiltrado nos chamados midia. O memorando ao presidente Bush e 15 das mais altas autoridades americanas responsáveis pela conduta da política externa é extremamente positivo em relação ao Brasil. Ele foi elaborado após discussões com o vice-presidente Marco Maciel, o dr. Armínio Fraga e três embaixadores que ocupam elevados cargos da Nação. O relevante, na carta do conselho, é a afirmação que o Brasil é "o fulcro" da política americana em relação a todo o continente e demasiadamente importante para deixar de ser levado a sério - sofrendo a desatenção de uma política de "benign neglect".
O Brasil seria "um líder entre os mercados emergentes mais avançados", com uma economia quase tão poderosa quanto a chinesa, duas vezes maior do que a russa e uma população e PIB mais do dobro do resto da América do Sul. Em termos de paridade monetária como poder de compra, nossa economia ultrapassa US$ 1 trilhão e é a quinta do mundo. Estaríamos atrás dos EUA, da China, do Japão e da Alemanha, mas já, provavelmente, na frente da França, da Grã-Bretanha, da Itália e do nosso amicíssimo Canadá. Os investimentos americanos no Brasil são, por exemplo, cinco vezes maiores do que na China.
E a máquina que puxa o País para a frente é o setor privado da economia. O crescimento neste ano será de 4,5%, um dos mais altos entre as grandes potências.
O documento não deixa, porém, de mencionar os aspectos negativos da situação: a tendência a hostilizar o esforço de integração continental e demonizar os EUA - resultado de uma atitude sempre ambivalente no nosso relacionamento histórico com Washington; a ameaça de sermos atingidos pela intranqüilidade política e econômica dos vizinhos, particularmente Colômbia e Venezuela; a preocupação meio paranóica dos militares com a Amazônia; e a lentidão no processamento das inadiáveis reformas econômicas, inclusive tributárias e políticas, assim como os problemas das drogas e da educação insuficiente. Os redatores da carta não escondem sua ansiedade com as eleições sucessórias do próximo ano. "O sucesso nesse ponto é o fundamento (bedrock)" de tudo.
Como brasileiro - formado numa cultura patrimonialista atrasada que tem encontrado enormes dificuldades em se adaptar à modernidade, em vista de seus contrastes geográficos e étnicos; e membro de um povo de notório temperamento ciclotímico -, sofro igualmente das dúvidas e angústias que nos atingem neste momento. No entanto, após 65 anos de experiência na universidade, no serviço público e como "observador engajado", não perco a esperança (pois é sempre ela a última a morrer!) de ainda, um dia, assistir à emergência de nosso país para a seriedade de uma potência livre, ordeira e integrada no novo mundo globalizado de mercado aberto e democracia liberal.
J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br
|