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DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS
Jornal da Tarde 4 outubro 1999
J.O. de Meira Penna
Um dos sintomas mais alarmantes da perversão ideológica é que seu julgamento sempre é parcial - sua avaliação dos fatos sempre determinada pelo interesse político oportunista e não por um critério frio e objetivo do que é verdadeiro e justo. Em política externa, desse vício sofrem não só os governos, mas os observadores engajados e a opinião pública em geral, contaminada pela Esquerda. Vejam agora o caso do Timor Leste. Quando se falava na Bósnia, em Kôssovo ou, antes disso, na Guerra do Golfo, os ideólogos que dominam os meios de comunicação se manifestaram radicalmente contrários a qualquer intervenção de nossas Forças Armadas para atender aos pedidos da ONU. Em Timor, ao contrário, houve imediato aplauso ao envío de uma mísera companhia de 50 soldados para ajudar as forças de intervenção, capitaneadas pela Austrália e destinadas a assegurar a independência do território, de língua portuguesa e religião cristã. Dois pesos e duas medidas. Por que a diferença? A media esquerdizante alimenta simpatia por Milósevitch porque é anti-Nato e ex-comunista, e pelo movimento pro-independência de Timor que, na época, foi liderado por elementos de tendência maoísta. A Indonésia, porém, lhe é antipática porque governada por um regime, o de Suharto, que em 1965 desbaratou um golpe maoísta. Recordo esses fatos não para criticar a política do Itamaraty, de apoio ao Senhor Horta com cujos objetivos me sinto, aliás, solidário, mas para explicar a aparente incoerência do posicionamento brasileiro. Quando nosso país contribuiu com um destacamento do Exército e Fuzileiros, comandados pelo então coronel Meira Mattos, para a intervenção da OEA na República Dominicana em 1965, a fim de evitar que a ilha caísse nas mãos de Fidel Castro, um berreiro estrondoso se levantou contra a iniciativa do Presidente Castello Branco.
Pinochet, que salvou o Chile do comunismo, está preso há um ano pelo “pequeno poodle de Clinton”, o Premier britânico. Fidel Castro, responsável por colocar pelo menos 15.000 cubanos de encontro ao paredón, e mais de cem mil angolanos e etíopes no cemitério, é acolhido com aplauso e festança por todos que figuram no Manual do Perfeito Idiota latino-americano; e elogiado como um David que venceu o Golias norte-americano pelo Presidente da República, embora quase tenha provocado uma guerra nuclear ao incentivar o desembarque de mísseis soviéticos em seu latifúndio insular. Dois pesos e duas medidas. Agora mesmo, os líderes chineses estão recebendo felicitações de visitantes ilustres de todas as grandes potências mas são os mesmos que, há dez anos, na mal-chamada Praça da Paz Celestial, sacrificaram em dois ou três dias de repressão armada mais gente do que todos os que desapareceram no Chile durante o regime de Pinochet, mesmo acrescentando os que foram eliminados sob as ordens de Allende antes do golpe de 11.7.1973. Aliás, cinquenta milhões é o que se calcula tenham sido elevados à eterna paz celestial sob o regime maoísta antes que Deng Xiaoping, em boa hora, encaminhasse sua nação no sentido da abertura capitalista e globalização. Dois pesos e duas medidas.
Os terroristas do IRA, que também excluiram do convívio dos vivos, na Irlanda do Norte, mais gente do que morreu no Chile entre 1973 e 1990, são objeto da carinhosa atenção dos Petistas britânicos, muito bons-moços quando se trata de marxistas. Aliás, não me consta que o juiz Baltazar Garzón tenha procurado violadores de direitos humanos em seu próprio país, entre os assassinos da ETA por exemplo - que os deve ainda haver aos montões, sobreviventes da guerra civil terminada há 60 anos e que fez setecentas mil vítimas - guerra civil aliás, provocada como no Chile pela resistência ao comunismo, da qual resultou o regime democrático e monárquico que hoje permite ao mesmo Garzón exercer seu magistério. Por falar nisso, que estavam fazendo no Chile os 30 espanhóis cuja morte Garzón deseja vingar? Dois pesos e duas medidas. A Justiça Ideológica não tem os olhos vendados. Os seus são arregalados e ela segura, na mão direita, uma balança pesadamente inclinada para um lado só e, na outra, não uma espada justiceira mas uma metralhadora guerrilheira...
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