|
Segunda-feira, 11 de junho de 2001
Energia, ideologia e cultura
J. O. de Meira Penna
Muito contra a vontade intervenho na polêmica sobre a situação energética do País e as medidas de contenção do consumo. Intervenho porque, como sempre, a propaganda esquerdista, com o recurso histérico à mendacidade que lhe é própria, já arranjou um meio de condenar a crise como produto do neoliberalismo. Como podem a limitada privatização de 20% da geração elétrica no País, o total controle das linhas de transmissão e o intervencionismo governamental absoluto através da Petrobrás e Eletrobrás, criadas no governo de Getúlio Vargas, servirem de pretexto para o jogo orwelliano ignóbil de duplo-pensar, abastecendo o arrazoado catastrofista, inclusive da CNBP (a Conferência Nacional dos Bispos Petistas)? O propósito óbvio da celeuma é fortalecer a candidatura virtual de seus líderes pela ardilosa crítica oposicionista. Na minha infância, conheci o Rio e São Paulo como cidades entre as mais bem iluminadas do mundo. Não só iluminadas, porém bem abastecidas de gás e transportes coletivos. Graças às companhias estrangeiras, a luz nunca faltou. A xenofobia nacional-socialista serviu-se do hábito de sistematicamente lançar pechas injustas contra a indigitada Light canadense e outras empresas inglesas e americanas, e criar bodes expiatórios apropriados com vistas à estatização e burocratização peçonhentas que os demagogos (inclusive, na época, da própria UDN!) ambicionavam para seus projetos corruptos.
Haviam sido grandes engenheiros e empresários das três nações anglo-saxônicas, como na obra exemplar de engenharia da represa Billings, lançando por cima da Serra do Mar a água que corria para o Tieté/Paraná, os que primeiro solucionaram as necessidades energéticas das áreas mais industrializadas do País. O problema foi criado e agravado quando uma série de governos nacional-esquerdizantes, como os de Brizola/Jango, passou a perseguir as empresas. O controle das taxas de serviço as impedia de investir no aumento da capacidade instalada a fim de, posteriormente, nacionalizá-las.
A segunda questão consiste na eterna propensão brasileira em não antecipar o futuro. Moro em Brasília, que é o exemplo mais clamoroso desse traço cultural. Quando foi planejada para meio milhão de habitantes, a opinião pública debicou a não mais poder o projeto, alcunhando-o de louco e utópico.
A Novacap seria abandonada tão pronto construída, ao final do mandato do JK.
Quarenta anos depois, já tem 3 milhões de habitantes e mais automóveis do que a população inicialmente estimada no Plano Piloto... Ninguém tampouco antecipou a necessidade de transporte coletivo eficiente e barato: há 15 anos que se constrói o Metrô brasiliense! Mas a mesma ausência de visão, talento antecipatório e desgosto com o relacionamento de causa e efeito se registaram na lei do inquilinato, na reserva de mercado para a informática, no calote do Sarney (e, mais recentemente, do Itamar em Minas) e outras iniciativas gravemente danosas ao desenvolvimento nacional. O tão aclamado "país do futuro" vive, permanentemente, desejando conservar o passado e, invariavelmente, é a intelectuária de esquerda a maior responsável pelas medidas reacionárias que prejudicam o "Grande Salto para a Frente" (o mesmo na China, incidentalmente!).
Já tive ocasião de escrever sobre o eterno conflito entre a Razão Curta dos que, como dizia o economista francês F. Bastiat em princípios do século 19, só pensam naquilo que vêem, a curto prazo, e a Razão Longa dos mais ricos em percepção e intuição futuristas. Quantos foram, em nossa história, os Barão de Mauá, os Rodrigues Alves, JKs, Castelo Brancos, Roberto Campos? Quantos os empresários perspicazes como Gerdau ou Ermírio de Moraes? Poucos possuem olhos para penetrar nas brumas do Devenir. Na atual crise energética não é só a miopia do governo (ou de S. Pedro, provavelmente acusado de neoliberal ou privatista por nos privar de abundantes chuvas no verão...) que deve ser criticada - é a própria ineficiência e inaptidão do Estado socialista para qualquer tipo de planejamento a longo prazo...
J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br
|