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Segunda-feira, 2 de abril de 2001
O antiliberalismo 2000
Muitos observadores liberais já se deram conta de que, após uma primeira vaga de euforia no annus mirabilis de 1989, e o colapso da URSS, uma reação coletivista manifestou-se com crescente desenvoltura ao fim da década. Um motivo é simples. A vitória dos totalitários no passado, quer à direita, quer à esquerda, foi invariavelmente acompanhada da repressão mais violenta. Milhões de "inimigos da revolução" foram eliminados, exilados ou pereceram no que se denominou a "sociedade carcerária". Os Jacobinos de 1793 em França deram o primeiro exemplo. O liberalismo, ao contrário, é por definição tolerante, mesmo daqueles partidos que objetivam sua própria destruição. Em 1934, os democratas alemães entregaram o poder a Hitler pelo voto. Em 1989/91 na Europa Oriental, a transição para a democracia se denominou "revolução de veludo". Não por acaso, o primeiro filósofo categórico do liberalismo político e econômico, John Locke, foi também o autor do Ensaio sobre a Tolerância em que definiu, depois dos sangrentos conflitos religiosos de seu século, os princípios da liberdade de expressão e associação. Os liberais, somos obrigados a combater com as mãos atadas, pois, de outro modo, estaríamos traindo nosso próprio arrazoado fundamental de liberdade.
Os sobreviventes do totalitarismo, entretanto, logo refeitos do choque e horrendo desapontamento, recomeçaram então, por todo o mundo, a reerguer a cabeça - enquanto o processo liberal de abertura, privatização e globalização segue seu curso por todo o Planeta, como um elefante que abana as orelhas para afastar as moscas. O paradoxo mais extraordinário é o da China. O princípio "um país, dois sistemas" criou uma orla litorânea capitalista, incluindo Hong Kong, extremamente produtiva que já elevou o "Império do Meio" à segunda posição entre as potências do mundo, enquanto o resto se mantém sob o "despotismo oriental" mandarínico.
Um pequeno livro foi este ano editado pelo Instituto de Negócios Econômicos (IEA) de Londres, talvez o mais prestigioso "tanque da cuca" do mundo. Foi ele que, nos anos 80, influenciou lady Thatcher no caminho do renascimento liberal, assim estimulando a reagonomics dos EUA com o maior surto de crescimento de sua história. A obra intitula-se Anti-Liberalism 2000, com um subtítulo irônico "O surgimento do neocoletivismo do milênio", e seu autor, David Henderson, analisa as falácias da moda como "empobrecimento", "marginalização", "exclusão social" e "capital especulativo". O curioso é que Henderson demonstra a extensão quase universal do mesmo fenômeno reacionário. Embora raros sejam os que ainda advogam um retorno à economia centralizada, com a socialização dos meios de produção (Fidel Castro teria confessado que só há hoje dois comunistas no mundo, ele próprio e Oscar Niemeyer), um número crescente de políticos e intelectuários defende a escolha de uma assim-chamada "terceira via" - a que proclamam líderes "trabalhistas" como Blair, Schröder e Jospin.
Com maior ou menor dose de reação estatizante, os países da União Européia (EU) têm tido um crescimento sensivelmente inferior ao americano e alguns, França e Suécia por exemplo, revelam extrema relutância em transcender sua tradição autoritária e intervencionista, o que explica por que seus índices sociais pouco correspondam aos ideais dos respectivos programas socialistas.
O temor é que a ambicionada união política tanto pode conduzir ao fechamento autárquico quanto ao crescimento patológico da burocracia estatal. Os altos índices de desemprego convivem com um número crescente de imigrantes do Terceiro Mundo - revelando algo podre no reino da Dinamarca... Vários autores, como lord Dahrendorf, Albert Hirschman, o sociólogo britânico T. H.
Marshall e o conhecido intelectual afro-americano Thomas Sowell, autor de A Conflict of Visions, apontam para a existência de contradições nas duas posições antagônicas.
Henderson faz um trocadilho divertido quando se refere ao "Milênio". O "milenarismo" ou "quiliasma", de origem cristã, se secularizou de fato no socialismo moderno - a utopia de uma sociedade igualitária de perfeita justiça e moralidade. Quando agitados seus cupinchas falam ainda em revolução ou promovem badernas como as de Seattle, Davos ou das 18 mil vacas loucas de Porto Alegre, encabeçadas por um bovino francês, produtor de queijos. Quando moderados, desejam apenas "empresas com face humana". Em que isso consiste, não se sabe bem, eis que o mercado livre foi, precisamente, aquele que tem proporcionado todas as conquistas sociais da Humanidade nos últimos 200 anos. A gororoba se concentra preferencialmente em algo que se autodefine como esquerda, misturando feminismo, ecologia, anti-racismo, "direitos humanos", gays, traficantes e, em sentido lato, o "politicamente correto". Uma certeza, pelo menos existe: todas as sucessivas vagas históricas de liberalização e globalização acarretaram reações autoritárias e coletivistas que, indefectivelmente, se esgotaram na própria vacuidade de sua retórica.
J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br
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