Pensadores Brasileiros       

Artigos de José Osvaldo de Meira Penna

Período de 21/1/1998 a 15/10/2001
Total: 83 artigos
 

Livros de J. O. de Meira Penna na Livraria Cultura

- Ai Que Dor de Cabeça!
- O Dinossauro
- Em Berço Esplêndido
- O Espírito das Revoluções
- A Ideologia do Século XX
- Utopia Brasileira

Procure o livro dos seus pensadores favoritos na Livraria Cultura!


Livros de J. O. de Meira Penna no Submarino

- Ai Que Dor de Cabeça!
- Decência Já!
- O Elogio do Burro
- Em Berço Esplêndido
- O Espírito das Revoluções
- A Ideologia do Século XX
- Utopia Brasileira

Procure o livro dos seus pensadores favoritos no Submarino!

O EMIR DOS CRENTES

Não publicado Março/2000

J.O. de Meira Penna

É infelizmente óbvio, em nosso país, o descaramento das sumidades da Intelligentzia de esquerda - tão claramente desprovida dessa virtude. Um exemplo supino de tal fenômeno é o do Emir dos Crentes, mais conhecido como professor Sader, editor da coletânea “Os Sete Pecados Capitais do Capitalilsmo”. Perdôe-me o eminente “sociólogo” levantino e guru do PT se lhe renovo o merecido galardão do “prêmio Imbecil Coletivo de 1996”, a ele generosamente concedido por Olavo de Carvalho. Suas idéias são bastante características. Definem o mecanismo de transferência de culpa, dialética mendaz, deslealdade e cínica hipocrisia “xiita” (mas será que o professor é sunita?) que manipula a história como o herói do “1984” de Orwell.

A tentativa de contrapor ao “Livro Negro do Comunismo” (cem milhões de mortes) um pseudo “Livro Negro do Capitalismo”, denuncia o “desconhecimento da história”, indigita o “pensamento único” e utiliza o truque de interpretar de modo estreitíssimo os dogmas marxistas-leninistas. Um caso característico é a denúncia virulenta da globalização. Em suma, o que muitos marxistas tupiniquins ignoram é que o velho guru barbudo era globalista. Era entusiasticamente globalista, pois acreditava que só uma economia capitalista madura criaria as condições indispensáveis à revolução proletária. A prova da ignorância tupiniquim está numa polêmica ocorrida em 1998, entre dois eminentes cartolas do PT, os deputados José Genoíno e Sandra Starling, líder do partido na Câmara. Por coincidência, comemorava-se, então, o sesquicentenário do Manifesto de Marx/Engels. Desconhecendo com toda evidência os escritos de seu mestre, Sandra Starling deblaterou contra o processo atual de globalização, considerando-o contraditoriamente como um mito, uma ilusão falsa, uma perspectiva errônea e, ao mesmo tempo, uma realidade apocalíptica cujos efeitos perversos passou a enumerar em tons histéricos. Seu colega Genoíno foi mais genuinamente marxista. Compreendendo as implicações das teses de Marx para uma interpretação correta do que se passa hoje no mundo, reconheceu-lhe a realidade criativa. O estupendo paradoxo é, justamente, que as profecias de Marx, esboroando-se totalmente no que diz respeito à sua tese do triunfo inevitável do socialismo sob o efeito das Leis Férreas da História, revelaram-se uma antecipação realista no que diz respeito à universalização da cultura e da economia do Ocidente. A luminosa realidade no texto básico do Marxismo é que é ela atribuída, justamente, à burguesia capitalista. O paradoxo é que seja exatamente a globalização o que hoje os esquerdistas mais detestam, não em termos de um arrazoado econômico e social, mas por força de irresistíveis paixões nacionalistas. A interdependência inevitável das nações é o que “a artilharia pesada” do Manifesto de 1848 anuncia, com a qual o capitalismo está “destroçando as Muralhas da China”, forçando assim, nas próprias palavras de Marx, “a capitulação do intenso e obstinado ódio dos bárbaros contra os estrangeiros”. Mas, me pergunto então: quem são hoje “os bárbaros mais obstinados”? Não seriam os de Cuba e da Coréia do Norte, os dos dois últimos baluartes da reação vermelha - os mais isolados, os mais economicamente “independentes” e os mais miseráveis?

Se no terreno da história contemporânea, a ignorância e a mendacidade dominam, mais grave é que regista o Comendador dos Crentes no que diz respeito à história do século XIX. Sua Eminência atribui a Iª Guerra Mundial (20 milhões de mortes) ao Capitalismo. Admiravelmente simples! Só que, em 1914/18, a França e a Grã-Bretanha eram governados por partidos de esquerda. Os dois líderes, René Viviani e Clemenceau, eram ambos socialistas; e Lloyd George um liberal de esquerda apoiado pelo Labour. Um único prestigioso socialista se opôs ao conflito, Jean Jaurès: foi assassinado por ser germanófilo. O Reich bismarckiano era similarmente dirigido pela Social-democracia e, dos dois lados da cerca, todos os socialistas, sem exceção, aplaudiram e votaram os orçamentos de guerra de seus respectivos governos.

O mesmo em 1939. Atribuir ao “Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães”, os Nazistas de Hitler, um vezo “capitalista” é uma aberração que ofende nossa inteligência. Em 1939, “capitalistas” eram os judeus e foram por isso queimados em Auschwitz... Todos os liberais austríacos e alemães que, no pós-guerra, iriam erguer a “economia social de mercado” e promover o “milagre alemão”, homens como Adenauer, Eucken, Machlup, Ludwig Erhard, von Mises e Hayek, se encontravam ou no ostracismo, ou na cadeia ou no exílio.

Mas por ventura os militares nipônicos que, em 1932, invadiram a Manchúria; em 1937 a China, promovendo o rapto de Nanking; e, em 1941, bombardearam Pearl Harbor, seriam também burgueses capitalistas? Quem assinou o Pacto Molotov-Ribbentrop de agosto de 1939, que desencadeou a Guerra (50 milhões de mortes)? Molotov não era o Chanceler de Stáline? Permitindo a Hitler liquidar separadamente com a Polônia, a Escandinávia e a França, não foi o que facultou a Stáline, o outro parceiro, se locupletar com a outra fatia da Polônia, os estados bálticos e a Finlândia? E como foi mantido e se expandiu o Império soviético (60 milhões de vítimas)? Quem invadiu a Coréia do Sul em 1950, o Tibet em 1951 e a Índia septentrional em 1963? Não foi o Vietnam comunista de Ho Chimin que assolou a Kampuchea democrática (um milhão de mortes) e entrou em guerra com a China maoísta em 1979? Não foi o Iraque que atacou o Irã e a URSS que ocupou o Afeganistão em 1989/90? E a Iugoslávia de Milosevitch não era comunista quando se desintegrou em sangrenta guerra civil (trezentos mil mortos)?

Os ilustres correligionários do Emir dos Crentes devem aprender história no curso primário antes de escrever “Em Defesa da História” nos jornais burgueses de Brasília, Rio e S.Paulo, essas mesmas folhas que acusam de colaborarem no “festival do pensamento único que assola nossa imprensa”. Mas talvez tenham razão: o festival de pensamento bestialógico que assola nossa imprensa e o “clima de impunidade” com idéias estrambólicas é a mesma suruba ideológica de que o glorioso Comendador está, precisamente, gozando com seus comparsas, na coletânea aqui examinada...

Numa de suas obras principais, “A Nova Ciência da Política” (trad. Editora da UnB), atribui Eric Voegelin a Dario Hystapis, o Xá que fundou o Império persa no 5° século antes de Cristo, a primazia de um fenômeno ominoso que contamina nossa época. Após por haver sido integrado à civilização ocidental, a Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida ao Marxismo constitui, na verdade, a essência da Ideologia, essa “religião civil” de nossa época. O totalitário rei iraniano a si-próprio atribuía a defesa do Bem e da Verdade, projetando sobre seus adversários, quaisquer que fossem, a pecha de defensores da mentira e do mal. O origem dessa dicotomia ética aplicada à política se encontra no próprio dualismo original da religião dos iranianos, desde que seu fundador, Zarathushtra ou Zoroastro, cindiu em dois a divindade, concedendo a Ormudz as qualidades de bondade e veracidade, a ele opondo Arihman, o “grande satã”, deus do mal e da mentira. O dualismo transcendente tomaria uma forma mais pronunciada nos ensinamentos de um outro profeta, Mani ou Manichaeus, que viveu oitocentos anos depois e influenciou as seitas gnósticas de princípios de nossa era. Fundador de uma religião conhecida como Maniqueísmo, Mani contaminou de mitologia mágica dualística todas as heresias que ameaçariam a ortodoxia católica na Idade Média, Cátaros, Albigenses, etc. No Maniqueísmo, somos nós, seus professos, donos da verdade e da justiça, enquanto detestáveis são aqueles que não pensam como nós porque portadores da maldade e da mentira.

É fácil avaliar a importância dessa psicopatologia na postura do ideólogo moderno, fiel ao cego dogmatismo de seus slogans, chavões, lugares comuns e mais estapafúrdias doutrinas, e sempre disposto a acusar de mentirosos, injustos, perversos e egoístas seus adversários. A dialética do Bem e do Mal que o maniqueísmo provoca leva o alegado defensor da Verdade a recorrer a qualquer instrumento para eliminar o Outro. A faca do assassino (do árabe hashishim, comedor de haxixe), os fogos da Inquisição, o Arquipélago Gulag, a bomba terrorista da “Guerra Santa”, o tiro na nuca no porão do KGB e o paredón para punir o traidor “vendido aos interesses americanos”, tornaram-se banais em nossa época. Orwell descreveu magnificamente o “duplo-pensar” totalitário que justifica o crime. O ideólogo pensa estar defendendo a justiça e a verdade, de tal modo que a prisão moscovita se transforma em “amorzinho” (Lubianka) e o genocídio é a justa recompensa dos “capitalistas burgueses”. A corrupção da verdade em seu oposto, a Grande Mentira dialética, é também suscetível de ser diagnosticada como Pseudologia Epidêmica ou Pseudodoxia Fantástica. Seus preceitos podem ser encontrados no “Manual do Perfeito Idiota Latin-americano!”. São constantemente consultados pelas Viúvas da Praça Vermelha que não sabem ainda que foi-se o martelo no annus mirabilis de 1989 (saudemos essa data maior do século XX!)...

Vejamos agora como diversa é a história, expurgada do vírus no computador da intelligentzia... As ciências sociais raramente se têm associado com a filosofia política e a historiografia para estudar o fenômeno do massacre coletivo, resultante de guerras, revoluções, regimes totalitários e tiranias personalistas. Há um número considerável de livros publicados sobre o Holocausto judaico da IIa Guerra Mundial; sobre a criminalidade no mundo; sobre os males do colonialismo e outros no gênero. O professor R.J. Rummel, cientista político da Universidade de Hawai, distingue-se pelo trabalho gigantesco e obsessivo que tem realizado, com a publicação de já quatro livros, sobre os genocídios, ou o que ele chama os "democídios" de nossa centúria. Esta, como se sabe, é notória por haver avançado a cultura humana no salto mais espantoso do conhecimento científico e desenvolvimento tecnológico e econômico, mas também de ser responsável por um morticínio inédito na história da Humanidade.

Rummel não está tanto interessado nas mortes em conflitos bélicos que qualificaríamos de "normais" - como os oito milhões de soldados mortos diretamente em combate na Ia Guerra Mundial. Sua pesquisa se dirige ao massacre puro e simples de civis, prisioneiros de guerra, refugiados em trânsito, mortos em campos de concentração e de outros modos eliminados, numa variedade de formas que deixa os diversos torturadores e inquisidores da Idade Média como suaves sadistas em comparação. O número de mortes por violência coletiva no século passado atinge facilmente 200 milhões. Rummel calcula em 170 milhões apenas os mortos em democídios. Ele estabelece uma lista dos mega-assassinos que é a seguinte, com as respectivas cifras de sua vítimas (em milhões): URSS (62); China comunista (35) com mais 3,5 no período da guerra civil e guerrilha; Alemanha nazista (21); China nacionalista e período de anarquias militar(11); Japão (6); Cambódia (2); Turquia (1,8); Vietnam (1,7); Polônia (1,6 no episódio da expulsão dos alemães); Paquistão (1,5); Iugoslávia (um milhão) tanto por parte dos Titoístas quanto Croatas e Sérvios; Coréia do Norte (1,6) e México (1,4) no período da Revolução mexicana. Alguns outros episódios foram, infelizmente, esquecidos pelo eminente historiador detetive: os milhões resultantes dos regimes comunistas da Etiópia (Menguistu) e Angola; assim como os milhões resultantes da partilha do sub-continente indiano, inclusive constantes conflitos comunais.

O maior morticínio não foi, aliás, causado por conflitos nacionais mas por guerras civis e genocídios internos. Stáline matou mais russos do que Hitler; Mao dez vezes mais chineses do que o general Tojo; e o cambodiano Pol Pot cem vezes mais do que os khmers carregados pela Guerra do Vietnam. Dos 200 milhões, mais da metade morreu nos massacres, repressão e fome provocados por regimes totalitários - aqueles que gosto de chamar "nacional-socialistas" porque representam a conjugação das duas ideologias terrorísticas que desgraçaram o século.

O ideal de paz sempre esteve implícito nas idéias do Liberalismo clássico de Locke, Adam Smith, Kant, Burke, Paine e dos Pais Fundadores da América. Cobden e Bright na Inglaterra associaram o movimento pela paz ao livre comércio e à abertura global da economia. O próprio Keynes, reconhecendo essa tendência do capitalismo em trocar as armas pelos arados, os canhões pelas usinas e o comércio, observou que mais vale um indivíduo oprimir sua conta bancária do que milhões de seus concidadãos. Considerando a agressividade da natureza humana que, desde a transição evolutiva dos macacos para os hominídeos, deu demonstrações inequívocas de prezar a violência e a guerra, é notável que, ao se aproximar de uma situação que ameaçava a própria sobrevivência da espécie, tenha a Humanidade finalmente se dado conta que é melhor livremente competir pela produção e o mercado do que pelo porrete, a faca, a flecha, a bala e a bomba. A Revolução de Veludo "neoliberal" de 1989 é o sinal de uma transformação inédita na história do mundo.

Compilado em 28/10/2001
Fonte: Vários sites na Internet

Voltar à página inicial