Pensadores Brasileiros       

Artigos de José Osvaldo de Meira Penna

Período de 21/1/1998 a 15/10/2001
Total: 83 artigos
 

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O reverendo Moon – amigos e detratores
21/2/00
J. O. de Meira Penna


Uma das características mais interessantes da época em que vivemos é a proliferação de igrejas, de seitas, comunidades e métodos de ação religiosa, e de novos caminhos abertos ao homem na eterna procura de uma verdade transcendente. O fenômeno se registra em todo o mundo. Salvo naturalmente naqueles países em que o fundamentalismo islâmico persegue e liquida pela violência qualquer veleidade de divergência da obsoleta ortodoxia local. Os líderes dos países a que me refiro nunca leram o ensaio sobre a tolerância com que John Locke, ao fim do século 17, lançou as bases teóricas para o pluralismo religioso numa atmosfera de liberdade, mútuo respeito e admissão de divergência nas convicções e opiniões políticas. No Brasil, a intolerância nunca campeou, pelo menos a ponto de provocar lutas como as que ensangüentaram a Europa nos séculos 16/17 e de novo, em sentido ideológico, na passada centúria. O declínio da Igreja Católica, corrompida por sua intromissão na política em escandalosa desobediência às cominações dos Evangelhos, teve como efeito, pelo que se vê, uma profusão incrível de Igrejas Evangélicas, além das Espíritas, Ba’hai, Mórmons, Budistas, Hare Krishna, Zen, etc., sem falar no retorno ao paganismo mais primário da macumba e do culto de Iemanjá. 

O estudo de um desses movimentos me interessou, não evidentemente por seu ensinamento religioso, algo extravagante, mas por seu conteúdo político e social. Refiro-me à Igreja da Unificação, fundada na Coréia pelo reverendo Sun Myung Moon. Celebrando o octagésimo aniversário de seu fundador, os membros da igreja reuniram-se em Seul, semana passada, para uma cerimônia gigantesca de casamento ecumênico, do tipo que costuma realizar. A prática de unir casais em matrimônio misto europeu/asiático/africano é um dos pontos curiosos da crença, por promover de maneira prática e com simbologia adequada uma das exigências prementes da atualidade globalizadora – a aproximação do Ocidente com a Ásia Oriental. De modo concreto, deseja Sun Myung Moon desmentir os famosos versos de Kipling: East is east, and west is west, and never the twain shall meet... 

Numa época em que a família se vai desmilinguindo, aqui como no resto do mundo, merece apoio todo movimento que, como os partidários da Associação das Famílias para a Unificação e a Paz Mundial, se congregam numa entidade com tal dinâmica. Dois outros pontos explicam tanto o sucesso quanto a violenta reação que desperta em seus detratores: originário da Coréia do Norte, onde sofreu torturas e perseguições por parte do regime stalinista local, o reverendo Moon se distinguiu na luta implacável contra o comunismo, até o momento em que, triunfante, foi convidado por Gorbachev a Moscou, 1990, em plena atmosfera de Glasnost, ocasião em que o conheci. A peculiaridade excepcional do movimento, dito de “Unificação”, da qual Moon se proclama uma espécie de messias, ou pelo menos profeta, é ainda sua franca defesa do capitalismo e do liberalismo. Está, evidentemente, na lógica de sua doutrina. Mas a “ideologia” globalizante e capitalista se combinou com um excepcional gênio empresarial do próprio reverendo que possui, hoje, um verdadeiro império industrial, avaliado em US$ 2 bilhões e concentrado na Coréia e no Japão, de onde provém a maior parte de seus recursos. Controla ainda o segundo jornal mais importante da capital americana, o Washington Times. 

A combinação de um movimento religioso com colossal empreendimento econômico é o que provocou outro drama na vida de Sun Myung Moon, sua prisão por alguns meses nos Estados Unidos por se recusar a pagar US$ 7,000 de Imposto de Renda, argumentando que estaria ali dispensado da taxa como qualquer outra entidade religiosa. Enfim, igreja ou corporação industrial? Ou as duas? Inútil acrescentar que é esse o motivo do ódio inexorável, da intensidade inédita das denúncias e da campanha raivosa de calúnia de que são alvos o próprio reverendo e seus partidários. No Brasil, segundo li no International Herald Tribune (29/11/99), ou mais precisamente no município de Jardim, Mato Grosso do Sul, Moon teria adquirido 570 km² de terras para a instalação de seu novo “Jardim Edênico”, o Projeto Nova Esperança – justamente na região do Pantanal que, há 45 anos, em seu Tristes Tropiques, Claude Lévi-Strauss qualificou como uma das áreas mais hostis ao estabelecimento do homem no Planeta. A polêmica selvagem prossegue... 


J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br


Compilado em 28/10/2001
Fonte: Vários sites na Internet

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