|
Segunda-feira, 18 de setembro de 2000
Paciência exausta
Percorro muitos discursos oficiais, artigos de jornais, notícias de tevê, cartas de leitores, assim como opiniões em livros supostamente sérios, que, lamentavelmente, me convencem existir traços profundos em nossa cultura, talvez herdados do sistema de colonização pelo Absolutismo ibérico e a Igreja da Contra-Reforma, brutalmente prejudiciais a um verdadeiro espírito liberal de progresso e desenvolvimento. O malefício se coloca na esfera da política e na capacidade de administração da economia. Carregamos uma terrível tradição de ineficácia, corrupção e monstruoso patrimonialismo na estrutura do setor público - mas essas condições, em vez de provocar irritação, desespero e ímpetos incoercíveis de indignada revolta entre as pessoas mais lúcidas, são acolhidas com alguns raros protestos verbais e uma atmosfera geral de triste resignação. Os sintomas da vocação para o atraso são múltiplos e facilmente reconhecíveis em pequenos incidentes e aspectos de nossa vida política.
O exemplo imediatamente mais flagrante é o impacto que o totalitarismo marxista continua a exercer sobre a cultura nacional. O comunismo ruiu, esquecido como um terrível pesadelo mesmo nos países que o promoveram. No entanto, continuamos a manter não um, mas quatro partidos comunistas, todos eles, coitados, pródigos em suas patéticas receitas salvacionistas - o do senador Roberto Freire, o PC do B, o PT trotskista e um quarto, que descobri outro dia, Partido da Causa Proletária. O PT é sui generis. Um de seus deputados, em Brasília, é o principal defensor dos interesses daqueles que, como eu, somos "burgueses", proprietários na área conhecida como Parkway, de classe média para cima. O MST é seu órgão violento de luta de classes. Mas propõe, oficialmente, que sejam os camponeses donos de suas terras, uma tese tipicamente capitalista. Diante da evidência de uma agricultura moderna que requer cada vez menos gente empregada no setor, disfarça seus ímpetos desordeiros pedindo ao Estado financiamento antieconômico de "assentamentos", não nas terras devolutas do interior, mas nas já produtivas e "assentadas".
Para uma idéia da aberração, comparem com os EUA: população quase o dobro da nossa; metade do número de propriedades rurais; dobro de produção com apenas 6 milhões de farmers. Examinem agora o papel dos totalitários na vida política. Uma variedade de Neanderthal (grupo pré-humano que desapareceu há 50 mil anos), os partidos marxistas arvoram-se em agentes moralizantes, dedicados a tornar transparente nosso sistema administrativo - glasnost que eles próprios desmentem em sua praxis ideológica. Será que a população que apóia esses tartufos se dá conta do desastre que seus planos estatizantes e xenófobos, freando a privatização e globalização, teriam sobre a economia se, por ventura, viessem um dia a ser aplicados na área federal? Ignorância, mentira, inépcia, hipocrisia é o que a iniciativa de escândalos que artificialmente criaram tem demonstrado. Há anos que sabemos da mania faraônica e espírito de luxúria com os dinheiros públicos, revelados pelo Poder Judiciário.
Comparem a insignificância da rapinagem do Lalau com o faraônico monumental ostentado pela "Justiça" constitucionalmente autônoma em matéria orçamentária e administrativa. Considerem os grotescos salários dos marajás do Legislativo. Meditem sobre a nefasta inutilidade da Justiça do Trabalho e a dos Tribunais de Contas que apenas legitimam os desbaratos na área do Executivo. Cogitem sobre os abusos bem mais consideráveis, fraudes da Previdência, desvios dos "Anões" do Orçamento; dezenas, centenas de bilhões de dólares postos fora pela inépcia e improbidade de administrações anteriores (energia nuclear, ferrovias do aço e Norte x Sul, rodovias amazônicas, etc., etc.). Por que, em vez de providenciar as urgentes reforma política, reforma eleitoral, reforma tributária, reforma da Previdência, esses barnabés eleitos só se preocupam em criar escândalos e CPIs para divertimento da galera? Não! Numa reminiscência ciceroniana, Excelentíssimo e Eminentíssimo Senhor Representante do Povo, quousque tandem abutere patientia nostra?
J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br
|