Pensadores Brasileiros       

Artigos de José Osvaldo de Meira Penna

Período de 21/1/1998 a 15/10/2001
Total: 83 artigos
 

Livros de J. O. de Meira Penna na Livraria Cultura

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- Em Berço Esplêndido
- O Espírito das Revoluções
- A Ideologia do Século XX
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PREFÁCIO DE CUNHO AUTO-BIOGRÁFICO

Terça-feira, 30 de Outubro de 2001


Sempre foi um sério problema para autores de obras de filosofia, psicologia ou mesmo teologia - que procuram impressionar de maneira satisfatória o curioso mas desprevenido leitor - saber como dar um início apropriado a seu livro. Alguns simplesmente anunciam o tese principal com um surdo tambor - bombo acompanhado de fanfarras, destinadas a libertar do torpor os que se atreveram a enfrentar o gênio. Arthur Schopenhauer, por exemplo. Logo na primeira frase de sua obra principal, o grande pessimista alemão proclama com grandiloquência: "O Mundo é minha Representação" (Outra possível tradução é "O Mundo é minha Idéia"!). Ora, o mundo é e não é minha idéia. A realidade está dentro de mim ou fora de mim? Mais certa é a dúvida hamletiana: qual é a verdadeira essência dessa realidade? quem sou eu? sou ou não sou? onde está o Eu como consciência de si-mesmo num mundo objetivo cujos contornos apenas superficialmente conhecemos? 
No Ecce Homo, escrito "com dinamite" autobiográfica nos derradeiros meses de sua lucidez (1888), e obra já extravagante pela loucura no extremo de ironia, enceta Friedrich Nietzsche o Prefácio com a declaração estrondosa: "Antecipando que me será necessário, dentro em breve, endereçar à humanidade o mais grave desafio que tenha recebido, parece-me indispensável dizer quem eu sou"... Segue-se uma série espantosa de queixas pela ignorância geral em relação a seu próprio valor, eivadas de ressentimentos amargos pelo pouco sucesso dos livros que publicara, mas compensadas por auto-elogios: "Por que sou tão sábio", "Por que escrevo livros tão bons", "Por que sou tão inteligente". Seguem-se outras afirmações fantásticas: "Sou discípulo do filósofo Dionísio. Prefiro ser um sátiro a ser um santo"; "Sou um nobre de puro sangue polonês"; "Meu estilo é a arte mais diversa que qualquer homem tenha jamais tido à sua disposição", "Voltaire foi um grandseigneur do espírito e é isso, precisamente, o que igualmente sou", "Parece-me que segurar nas mãos um de meus livros é uma das distinções mais raras que qualquer pessoa a si mesmo possa conferir. Acredito mesmo que deve tirar os sapatos nessa ocasião". O livro vai por aí adiante, com afirmações da mesma natureza. A paranóia é evidente. A intuição da loucura próxima também: "Estou envergonhado desta falsa modéstia"; "Todos os traços mórbidos me faltam. Mesmo em períodos de enfermidade severa não me tornei mórbido... nos setenta dias do último outono estive criando ininterruptamente nada que não fosse de primeira categoria. Que homem algum será capaz disto realizar outra vez ou já antes realizou, carregando-lhe a responsabilidade por todos os próximos milênios?".

Vejamos o que disseram outros pensadores, ao se depararem com a problemática que se resume na fórmula de confronto "Eu e o Mundo".

René Descartes fundamentaria sua filosofia racionalista com um simples a priori: penso, logo existo: Cogito, ergo sum. Pode parecer um pouco presunçoso que ouse alguém metafisicamente provar a Existência real através da certeza de seu próprio pensamento. Mas por que não? A priori sou eu. Sou eu que penso e que existo, mesmo quando solitário no meio de um deserto, no alto de uma montanha, ou em meu quarto a portas fechadas. De outra forma integrou Descartes suas memórias entre o Inconsciente onírico e o Consciente racional claro, preciso e metódico, de quem se tornou o maior Mestre, na obra central de sua vida, o "Discurso do Método para bem Conduzir a Razão e Procurar a Verdade nas Ciências". Ele acentua de entrada que "o Bom Senso é a coisa melhor partilhada do mundo" (Le bon sens est la chose du monde la mieux partagée). Não tarda, porém, a assinalar, no Capítulo II do livro, que a própria concepção dessa coluna fundamental do Racionalismo foi por ele forjada em decorrência de três sonhos, absurdos e extravagantes como todo sonho, registrados quando de uma viagem à Alemanha durante a Guerra dos Trinta Anos. Ora, todo sonho surge necessariamente de um mundo subliminar, infro ou supra-racional, um mundo ausente de qualquer senso comum ou qualquer império da racionalidade. Um sonho interpretado não é certamente um método para bem conduzir a razão, nem para procurar a verdade com idéias claras e precisas. O importante é que, através dos sonhos, reconhece Descartes a existência de uma instância a que damos hoje o nome de Inconsciente, a qual estabelece o relacionamento entre o Eu pensante, res cogitans, e o mundo exterior, ou seja, o universo espacial objetivo, res extensa.

Mas recuemos ainda mais atrás na história, mil e seiscentos anos! Mais ortodoxo, evidentemente, é Agostinho. O santo Bispo de Hipona abre suas "Confissões" - a primeira verdadeira Autobiografia e talvez a mais admirável de toda a história da literatura - com invocações e louvor ao Senhor - e não poderia ser de outro modo no monumento extraordinário que foi a obra do maior pensador cristão. Notável pela mocidade boêmia e irresponsável e como prelúdio ao relato do confronto do homem com a Divindade, introduz Agostinho, no texto puramente biográfico e meditativo, exposto da maneira ao mesmo tempo mais brutal, profunda e sublime, considerações sobre a metafísica do Tempo. A descoberta do Tempo! É a primeira vez que o Tempo se torna objeto preciso da investigação filosófica e isso influenciará, num sentido decisivo e irreversível, a pesquisa da mente humana num sentido de consciência da própria consciência do Eu. Agostinho aos poucos se dá conta da essência irreversível do Tempo na memória do passado, na observação do mundo presente e na capacidade de antecipação do futuro. Ali estão os três momentos do Tempo: o passado, o presente, o futuro - uma dimensão reta num movimento irreversível. O que já figura como esboço em Platão e Aristóteles se torna, sob a pena mágica de Agostinho, a primeira afirmação do Tempo como auto-biografia. Seguindo aquela "rota da alma em direção a Deus", itinerarium mentis in Deum tal como por S. Boaventura foi chamado, tão relevante na história do Cristianismo por haver introduzido elementos platônicos básicos na teologia que a Igreja construía, Agostinho reconhece que foi intuitivamente, o que quer dizer como uma Graça, um relâmpago aquilo que nele, como divino e Santo Espírito, penetrou. O que o converteu e o iluminou foi "a luz eterna e imutável", como que transcendentalmente emanada do Céu. Daí por diante, sobre tais alicerces agostinianos, num fundamento subjetivista e introspectivo erguido sobre o edifício monumental da filosofia clássica, grega, romana e helenística, se desenvolveria o pensamento ocidental em suas etapas medieval, renascentista, iluminista, empirista e moderna. De fato, a influência da filosofia grega e helenística perdurou durante a Idade Média e, menos de mil anos depois das reminiscências de Agostinho, outro grande pensador católico, Dante, baseando-se aliás principalmente no "Consolo da Filosofia" de Boethius, repetiu novas e admiráveis "confissões", em sua Vita Nuova (1293).

De outro calibre filosófico e moral são as "Confissões" de Rousseau. O genebrino logo ali proclama, nas primeira linhas desta masturbação auto-promocional, sua originalidade, o conhecimento dos homens que possui, a genialidade de sua intuição e os méritos excepcionalíssimos com que foi dotado: "Je forme une entreprise qui n´eut jamais d´exemple, et dont l´exécution n´aura point d´imitateur. Je veux montrer à mes semblables un homme dans toute la vérité de la nature; et cet homme, ce sera moi... Moi seul. Je sens mon coeur et je connais les hommes. Je ne suis fait comme aucun de ceux que j´ai vus; j´ose croire n´être fait comme aucun de ceux qui existent". Notem que, enquanto a aparente paranóia de Nietzsche no Ecce Homo se expressa com um misto de doidice e sarcasmo, dirigido contra si-mesmo - o alemão era um solitário, um introvertido extremo - o marketing hagiográfico que Rousseau inaugura é mero sintoma de desmedido autismo e incomensurável hipocrisia. O texto do primeiro grande escritor revolucionário que, conscientemente, contribuiu para a edificação da modernidade se enquadra, aliás, com perfeição, no que Eric Voegelin qualifica como a Revolução egofânica. Egofânico, no bom e mal sentido, é o espírito distintivo de nossa época - contraponto necessário de uma civilização inteiramente voltada para a investigação, o conhecimento e o poder sobre a natureza. De natureza egofânica igualmente pronunciada é a frase presunçosa com que Oswald Spengler deu início a seu "O Declínio do Ocidente" (der Untergang des Abendlandes): "Nesta obra se acomete, por vez primeira, o intento de predizer a história". Depois do anuncio pomposo, Spengler explica sua intenção: "Trata-se de vislumbrar o destino de uma cultura, a única que se encontra hoje no caminho da plenitude: a cultura da América e da Europa Ocidental". E acrescenta modestamente, para que ninguém disto duvide, que ninguém antes dele empreendeu resolver um problema de tamanha envergadura e transcendência histórica. O que ocorreu, entretanto, é que todas suas antecipações se revelaram falsas: o Ocidente não está em declínio, mas domina a civilização global; a China não "sofre a história", mas é um dos agentes mais ativos dos acontecimentos mundiais; a física não foi liquidada, mas produziu as maiores descobertas e as mais consideráveis aplicações tecnológicas no desenvolvimento das ciências; e não foi a Alemanha (nem tampouco a Rússia) que ergueu o Imperium mundi profetizado, mas são os Estados Unidos que presidem à Nova Ordem Espontânea global. A América se tornou a potência hegemônica num mundo de convivência democrática liberal - esse mesmo país que Spengler imaginava dever desagregar-se por força de sua confusão racial. O exemplo é típico da imaginação tresloucada de todos, ou quase todos, os auto-proclamados profetas e promotores de utopias socialistas, fascistas ou nacionalistas, que a perversa Ideologia gerou.

Vejam o contraste entre os delírios egocêntricos desses pensadores, entre os que mais influenciaram o espírito da modernidade, e os termos humildes com que Sir Karl Popper inicia a Introdução à sua própria filosofia. Pode esta ser lida na obra em dois volumes, editada em 1974 numa coleção intitulada The Library of Living Philosophers. Diz-se que, em virtude de um verdadeiro tabu ou espécie de etiqueta tradicional, não se deve penetrar mais a fundo na pesquisa do sentido de uma determinada filosofia enquanto vivo esteja seu autor. Estou absolutamente convicto da correção da tese de Nietzsche que não há filosofias, há apenas filósofos... No caso, por respeito protocolar à tradição, é com humildade que Popper redige o capítulo de 156 páginas no qual descreve a evolução de seu próprio pensamento. Tentando esclarecer e debater os temas em torno dos quais se debruçou como um dos mais eminentes filósofos do século, o pensador anglo-austríaco principia com as palavras: "Eu tinha vinte anos quando me empreguei como aprendiz de um velho mestre-marceneiro de Viena cujo nome era Adalbert Pösch, e com ele trabalhei de 1922 a 1924, pouco depois da Primeira Guerra Mundial". E logo a seguir confessa: "Acredito que mais aprendi sobre a teoria do conhecimento com meu querido mestre omnisciente Adalbert Pösch do que de qualquer outro de meus professores. Nenhum tanto fez para me tornar um discípulo de Sócrates. Pois foi esse mestre que me ensinou não só quanto pouco eu sabia, mas também que qualquer sabedoria à qual poderia aspirar não consistiria senão em me tornar mais plenamente consciente do infinito de minha ignorância". Não é este, de fato, um maravilhoso exemplo de confissão socrática, de humilde sabedoria?

Filósofo moderno de igual influência porém, a meu juízo, inferior a Popper na contribuição que realizou para o pensamento do século, Bertrand Russell assim se refere, no prólogo da Autobiografia publicada em 1967, às "três paixões, simples mas supremamente fortes, que governaram minha vida: o anseio de amor, a procura do conhecimento e uma invencível compaixão (pity) pelo sofrimento da humanidade". Ninguém imaginaria tais palavras na pena de um pensador que viveu mais de noventa anos de uma existência que se tornou notório pelas irritantes extravagâncias e incoerências de relacionamentos sexuais, comportamento, opiniões e posturas políticas. O positivista matemático tinha lá seus sentimentos profundos quando lamenta "...o mundo de solidão, pobreza e sofrimento (que) torna uma farsa o que deveria ser a vida humana". Somos forçados a respeitar o homem que é tido como o maior filósofo inglês do século XX, não obstante suas notórias leviandades. Mas vejam só: em 1948 ele publicou um ensaio aconselhando os americanos a um ataque nuclear preventivo contra a URSS, que lhe teria liquidado com as veleidades revolucionárias e imperialistas, deixando-a prostrada com uma centena de milhões de vítimas. Vinte anos depois, já diante do confronto atômico e do "equilíbrio do terror" (MAD - Mutual Assured Destruction), Russell desencadeou uma campanha anti-americana em torno do slogan imbecil better red, than dead. Sua tese era que, considerando a óbvia inevitabilidade de uma troca de mísseis atômicos entre as duas super-potências, bem como a superioridade de uma organização socialista sobre o capitalismo vigente, melhor seria o Ocidente entregar-se imediatamente ao domínio totalitário do Kremlin do que arriscar o que antecipava como o fim da civilização.

Um outro escritor e professor de filosofia inglês, Sir Anthony Kenny, de Oxford, admirador e principal discípulo de Ludwig Wittgenstein, considera este filósofo, discípulo de Russell etambém anglo-austríaco como Popper, o maior do século e Wittgenstein começou a vida como engenheiro, foi soldado na Iª Guerra Mundial, estabeleceu-se na Inglaterra. Lecionou em Cambridge onde adquiriu prestígio. Em seu Tractatus Logico-Philosophicus, Wittgenstein procura analisar, através de um estrito e absolutista método lógico, o Eu, o "Penso logo existo" de Descartes e o solipsismo inerente a toda filosofia subjetivista. Nos ítens 5.621 e nos que se seguem, 5.63 e 5.631, o vienense genial declara: "O mundo e a vida são um/ Eu sou meu mundo (O microcosmo)/ O sujeito pensante e apresentador (thinking, presenting subject), não existe tal coisa./ Se escrever um livro ´O mundo como o encontrei`, também teria de ali registar meu corpo e esclarecer que membros obedecem à minha vontade e quais os que não obedecem, etc. Seria isso então um método de isolar o sujeito ou, melhor ainda, de mostrar que num sentido importante não há sujeito: o que quer dizer, em tal livro dele menção alguma poderia ser feita". O aforismo de Wittgenstein, frequentemente citado: Wovon man nicht reden kann, darüber muss man schweigen - "Sobre aquilo que não podemos transmitir pela palavra (ou aquilo de que não podemos falar), devemos calar (ou manter silêncio)", parece óbvio. Não é, porém, tão simples. É mesmo quase impenetrável. Voltaremos a falar sobre esse filósofo, embora discordando do que sobre ele afirma Sir Anthony Kenny e de grande parte do que, mui penosamente, lhe consigo entender da obra. Wittgenstein, aliás, não escondeu certos traços místicos e desmentiu a maior parte das interpretações que sobre sua filosofia da Lógica positivista e da Linguagem foram divulgadas.

Muitos grandes sábios e cientistas exerceram profissões modestas e paralelas à sua ilustre carreira no amor da sabedoria. Sócrates era um boêmio ocioso; Jakob Boehme, sapateiro toda a vida; e Einstein funcionário dos Correios de Zurique quando elaborou a Teoria da Relatividade. Marceneiro - uma profissão, vale recordar, honrada por Jesus Cristo - quando iniciou a aprendizagem no campo da epistemologia, da teoria das ciências, da filosofia política liberal e luta contra o historicismo e o determinismo, Popper teve o mérito de desmistificar as falácias absolutistas, o marxismo, o freudismo, o hegelianismo, o próprio darwinismo radical, que se defendem da crítica detrás de uma muralha de tautologias. Um exemplo de como argumenta pela negatividade é sua afirmação de que o importante, em filosofia política, não é como se seleciona os bons governantes, mas como nos livramos dos maus sem violência sangrenta.

Detenho-me, agora, no exemplo de outro guru liberal, Isaiah Berlin. Falecido em 1998. Berlin, um dos grandes nomes do pensamento político moderno, tinha 86 anos quando, em fevereiro de 96, recebeu uma carta de um professor chinês que lhe pedia um sumário de suas idéias. Qualquer outro logo jogaria a carta na cesta de lixo. A resposta de Berlin cobre vários episódios autobiográficos e o relato da evolução de sua meditação sobre alguns dos mais importantes temas de filosofia política de nossa época - particularmente a distinção entre liberdade negativa e liberdade positiva, com privilégio concedido à primeira. O ensaio de Berlin é curto mas eminentemente instrutivo para a abordagem dos problemas intratáveis que afetavam nossa sociedade ao final do século.

Os que mencionamos acima eram, ou de simpatias socialistas, ou pioneiros do Liberalismo atual. Nossa curiosidade se dirige agora para um filósofo francamente conservador e inspiração mística. É outra das sumidades filosóficas contemporâneas no terreno político e religioso, Eric Voegelin. Ele também começou a ditar suas "Reflexões Autobiográficas" com mais de setenta anos. Traçando pormenorizadamente o fluxo das cogitações que o absorveram desde os 18 anos de idade, quando cursou a Universidade de Viena, e paralelamente à sua produção como escritor e professor, destacou Voegelin, do mesmo modo como os colegas acima mencionados, o relacionamento do desenvolvimento filosófico do Ocidente com os desastrosos acontecimentos políticos concretos que os obrigariam ao exílio e migração para outras plagas de um continente mais acolhedor. Einstein, Voegelin, Leo Strauss, Hayek, Popper, Berlin, Thomas Mann e outras sumidades no campo da filosofia, da física, da economia e da literatura - quer tenham ou não sido judeus - foram traumatizados pela experiência dos horrores da IIª Guerra Mundial, um episódio central na história humana que determinou o caminho trilhado em seu trabalho de meditação filosófica. Voegelin sofreu um outro exílio: está quase inteiramente ausente dos tratados e histórias da filosofia moderna. Como intróito à Amnesis, sua Autobiografia, ele nos transmite no entanto um apropriado e relevante conselho de Agostinho - uma citação do De Vera Religione: "No estudo da criatura não devemos exercitar uma curiosidade vã e perecível, mas ascender àquilo que é imortal e eterno"... Oxalá saibamos seguir esse sublime conselho! A meu ver, o máximo filósofo da história no passado século, particularmente na majestade incomparável dos cinco volumes de sua "Ordem e História", Voegelin representa o respeito e a ênfase na continuidade espiritual da evolução da humanidade que se tende hoje, com desprezo, a desconsiderar como "conservadorismo". Pela Revelação (intuitiva) e a Filosofia (meditativa e cogitativa), aproximamo-nos em lento e penoso caminhar tendo como meta a Verdade transcendental.

Ao contrário de Descartes, se é ele o fundador da filosofia moderna, refere-se Carl Gustav Jung, psicólogo das profundidades inconscientes e investigador dos aspectos irracionais da psique humana, não a reminiscências de juventude que lhe determinaram o caminho a seguir no penoso caminhar. As de Jung são semi-conscientes visões infantis que datam do segundo e terceiro anos de vida! Ditadas à fiel Secretária Aniela Jaffé quando Jung já percorrera mais de oitenta anos de existência, os episódios externos e a introspeção psíquica inextricavelmente se confundem no relato mnemônico da Autobiografia - "Memórias, Sonhos Reflexões". O Inconsciente (Unbewusst) está sempre presente. É o pano de fundo. Bem no início da obra, um sonho ocorrido quando na infância mal saída do berço, e tendo como motivo central um enorme phallus, impinge como imagem esmagadora que o vai atormentar por toda a existência e terá influência marcante sobre sua obra e idéias. Diante da evidência que, naquela tenra idade, jamais poderia haver observado um pênis em ereção, concluiu Jung que se tratava de um "arquétipo". O sonho possui, aliás, certas conotações sacrílegas. A nebulosidade luciferiana é inerente a muitas das intuições psico-teológicas do grande cientista suíço que o fará penetrar no terreno pouco explorado e engimático do gnosticismo. Mas seria esta a melhor maneira de convencer o leitor, leigo na matéria, de que o que está ali escrito constitui uma reflexão idônea sobre o valor da Psicologia Analítica do Inconsciente Coletivo?

"Memórias, Sonhos, Reflexões" foram publicadas pela primeira vez em 1961, no mesmo ano de sua morte. Na época, servia eu como Cônsul Geral em Zurique e frequentava regularmente o Instituto C.G. Jung, ainda localizado no próprio centro da cidade. Em suas reminiscências, Jung principia com as seguintes palavras: "A história de minha vida é a da própria realização por Si-mesmo do Inconsciente (self-realization of the unconscious). Tudo no Inconsciente procura manifestar-se externamente, e a personalidade também deseja evoluir para fora de suas condições inconscientes e sentir sua experiência como um todo. Não posso empregar a linguagem da ciência para esboçar esse processo de crescimento em mi-mesmo, pois não me posso sentir (experience myself) como um problema científico. O que somos em nossa visão interior (inward vision), e o que parece ser o homem sub specie aeternitatis, só pode ser expresso por intermédio de mito. O mito é mais individual e exprime a vida com maior precisão do que a ciência. A ciência trabalha com conceitos de medidas que são demasiadamente gerais para fazer justiça à variedade subjetiva de uma vida individual. É assim que agora empreendo, nos meus oitenta e três anos, a tarefa de relatar meu mito pessoal".

De modo similar, é também com 83 anos que inicio esta abordagem auto-biográfica, a ela juntando um mito pessoal, memórias, sonhos e reflexões sobre diversos temas filosóficos e políticos. Na própria capa ilustrada deste livro figura uma mandala - simbolizando um mito pessoal. Nela combino uma imagem tradicional, retirada de um quadro de pintura medieval de Deus no ato de criação do Universo e do Homem, com a representação surrealista das galáxias na visão de Max Ernst. Na estética moderna, Ernst bem traduz a irracionalidade ou, por outra, a suprarracionalidade que procura, na alma moderna, abordar os campos só na aparência opostos da realidade física e da nossa realidade interior Inconsciente.

No caso de Jung, Popper, Berlin, Voegelin e também no de Hayek, sua produção mental, que resume o trabalho de uma vida inteira de reflexão, se prolongou até uma idade em que já se arregimentavam entre os que nos consideramos cronologicamente mais enriquecidos. Somos, quiçá, merecedores do descanso ou cultivo de nossos caprichos, birras ou manias de velhice. No entanto, por que ir tão longe? Quase noventa anos tem Mário Vieira de Mello, meu amigo e colega, que procura em seus livros de filosofia seguir aquele conselho de Agostinho, repetido por Voegelin. Foi ele, Mário, quem também me revelou o pensamento de Voegelin e, em sua obra ainda tão pouco reconhecida, "Desenvolvimento e Cultura", quem me convenceu dessa verdade tão simples e tão descurada em nosso pensamento sociológico: a falta de uma sólida ética social é o principal entrave ao florescimento de uma autêntica cultura em nossa terra.

Mais de oitenta também carrega nosso Roberto Campos na idade. Campos é um spoudaios, um sábio venerável no sentido de Aristóteles. Seus artigos semanais e suas coletâneas, "Lanterna na Pôpa", "Antologia do Bom-Senso", etc., fazem jus à reputação que granjeou de ser, provavelmente, o homem mais lúcido do Brasil, tanto no terreno frio da ciência econômica - a dismal science - quanto na análise apaixonada dos obstáculos existentes à integração de nosso país à modernidade. A leitura dos escritos de "Bob Fields" foi um dos fatores que me incentivou a procurar entender algo de economia. A ciência pode ser horrenda, como alegava Carlyle. Bem mais horrendas, porém, são as consequências de seu desconhecimento. O drama está claramente exposto nas iniciativas historicamente tresloucadas e absurdas que tantos de nossos governos tomaram, século passado, e nas tolices repetidas por tantos de nossos homens, ditos "inteligentes", que nos impedem de saltar sobre as barreiras do sub-desenvolvimento inerente à sociedade patrimonialista.

"Liberals live longer" - diz uma piada atribuída a Hayek e vulgarizada nos meios liberais internacionais. Vivemos mais talvez. Sofremos, como quaisquer outros, os achaques da velhice, mas nos valemos de mais longa experiência. A experiência é preciosa e Wittgenstein, corretamente, a enaltece no capítulo 13 da Resenha de sua obra, empreendida por Anthony Kenny, em que são tocados os temas do Ceticismo e da Certeza. É graças à experiência que podemos acabar julgando com mais correção dos sucessos e loucuras de nossos contemporâneos poderosos.

Um amigo um tanto ou quanto ingênuo, porém sincero em sua cordialidade, me felicitou o outro dia com as palavras: "Gostaria de chegar à sua idade, com igual lucidez"... Não percebeu a gafe. Será que não estou realmente ameaçado de irreversível decrepitude? Já não estarei gagá, para merecer tal elogio? E o que escrevo ainda faz sentido, à luz do que prevalece como temas dignos de pesquisa e meditação filosófica neste início de milênio? Escrevo, contudo, o que penso e tenho pensado muito há dez, vinte, cinquenta anos. Valho-me, com certeza, da experiência de longas meditações atormentadas, diante de espetáculos a que assisti como "observador engajado"... "Pode alguém desmentir o efeito da experiência em nosso sistema de suposições ou presunções (assumptions)?", pergunta Wittgenstein. O filósofo da linguagem e da lógica não hesitou, no fim da vida (ele morreu em 1951, com 62 anos), a escrever ensaios sobre temas como "Ética, Cultura e Valor". E ousou mesmo, algumas vezes, pronunciar a palavra "Deus"... Ora, Ética, Cultura e Valor são as colunas que me sustentam, nesta etapa avançada da existência, ao procurar transmitir tudo o que tenho pensado sobre tão elevados tópicos. Ao alcançarmos essa idade, já conseguimos explorar, com alguma pequena, hesitante e vaidosa eficácia, os sistemas de causa e efeito, as distinções entre o Bem e o Mal, os critérios de Verdade e Mentira, e o conflito dos Valores. E, sobretudo, já nos damos perfeitamente conta do que seja a existência. Foi esta definida, há pouco mais de cem anos, por um médico, poeta e humorista americano do século XIX, Oliver Wendell Holmes (+1894). Pai de um ainda mais célebre juiz da Corte Suprema dos EUA, de mesmo nome, e inspirado ao que consta pela Mãe, uma calvinista rigorosa que morreu aos 93 anos, argumentava Holmes que "é a vida uma enfermidade fatal (fatal complaint), eminentemente contagiosa"...

O aforismo merece ser memorizado. Com a dura mas valiosa experiência de uma centúria tremenda como foi a nossa, ora terminada e da qual ativamente participamos, dispomos talvez de algo valioso para contar à nova geração, crescida em décadas menos atormentadas, mais fáceis, confusas e permissivas. Um século que foi o mais sangrento e desastroso da história da Humanidade, é igualmente um daqueles cuja memória, possivelmente, permanecerá como dos mais criativos nos reinos da ciência e tecnologia, de maiores e mais extraordinária conquistas no poder do conhecimento humano, de mais rápido e quase explosivo crescimento demográfico e econômico, de mais consideráveis avanços na globalização do planeta e de profunda e deplorável crise moral. Um século do qual emerge a promessa do triunfo da liberdade. No qual se descobre o aprofundamento da consciência humana, adolescente, para seu destino transcendente. E se vive, quiçá, a suprema virtude da esperança...

A época deixou fundas cicratizes na mente daqueles que, no Velho Mundo, viveram e sofreram, refletindo-se naquele outro, o Novo Mundo, que os abrigava da tormenta. Afetou do mesmo modo aqueles que, como nós, brasileiros - gente pouco séria, amantes de carnaval e futebol, alegres adolescentes, cordiais, tolerantes, sentimentais, impulsivos, irresponsáveis; só interessados em nós mesmos e no nosso mundo particular, imediato, formado por nossos amigos e familiares - recebemos passivamente os contrachoques dos terremotos que sacudiram o planeta inteiro. Como diplomata, vivi décadas em postos nos quatro continentes; assisti a alguns dos grandes eventos da história contemporânea; convivi com guerras, revoluções e violências; amontoei um patrimônio de reminiscências de gente ilustre. E isso também exige expressão. Requer testemunho. Advoga uma interpretação própria dos fatos observados e vividos. Pede memorial na perspectiva de nossa própria experiência. Que é, precisamente, o que vamos aqui empreender.

A Necessidade Criadora

A questão primária que se apresenta ao princípio da disquisição é a de saber se um inquérito filosófico, do tipo cogitado, será propriamente válido. Válido em primeiro lugar como expressão de uma necessidade íntima, de um imperativo pessoal, de uma urgência independente do impulso espontâneo de defesa de idéias, opiniões, convicções ou pontos de vista arraigados, embora constante e teimosamente atacados pelo irresistível ceticismo que o cansaço da velhice muito agrava. Será que o que vamos escrever interessa o mundo abstrato dos leitores desconhecidos? Merece ser acolhido com simpatia pelos amigos concretos com os quais vamos dialogar pelo Verbo? Será o livro lido ou treslido, será meditado ou mofará numa prateleira de livraria, merecerá críticas pelos jornais ou terminará vendido num sebo, virgem de qualquer atenção?

A um nível que quase ousaríamos qualificar de espiritual - ocorre a exigência de criação e expressão imposta pelo thymos, ou seja, pelo desejo de reconhecimento e afirmação como expressão legítima da personalidade que aspira a uma curta, curtíssima imortalidade ideal. Não que devamos esquecer a observação algo cínica de Henri de Montherlant, segundo a qual "não se alimentam os escritores de carne ou frango, mas exclusivamente de elogios". A publicidade e o reconhecimento são apenas justas compensações. Não deveríamos colocá-las no início da refeição, pois são apenas hors d´oeuvres... A substância vem depois do banquete. Escrevemos de fato, quando autênticos, tanto para os outros quanto para nós mesmos. Ao salientar o valor especial da atividade expressiva pela palavra escrita, que se recorde a frase profunda de Saint-John Perse, aplaudido poeta que, durante muitos anos e sob seu verdadeiro nome de Alexis Léger, foi diplomata, Embaixador e Secretário Geral do Quay d'Orsay. Prêmio Nobel de literatura, afirmava Saint-John Perse que a resposta adequada, quando alguém pergunta: "Por que V. escreve?", deve ser a mais breve possível: "Para melhor viver"... À la question toujours posée: "Pourquoi écrivez-vous?", la réponse du poète sera toujours la plus brève: "Pour mieux vivre". Perse alimentava uma visão trágica da vida e compreendo suas angústias. Outro grande poeta francês, talvez o mais eminente do século XIX, Charles Baudelaire, igualmente atormentado por seus fantasmas de volúpia, depressão e morte, explicava: "il faut travailler, sinon par goût, au moins par désespoir, puisque, tout bien vérifié, travailler est mon ennuyeux que s´amuser"... Que o trabalho seja uma maneira de escapar do tédio e da angústia, sobretudo o trabalho intelectual, é bem conhecido dos deprimidos. Não só a tarefa do escritor mas o simples prazer da leitura. Afirmava Montesquieu jamais haver sofrido algum tormento que uma hora de boa leitura não houvesse sarado...

Neste contexto, uma frase de Graham Greene é igualmente relevante: "Escrever é uma forma de terapia". O romancista inglês e personalidade polêmica cuja obra, em certa época, me fascinou, acrescenta em Ways of Escape: "Às vezes me pergunto como é possível que aqueles que não escrevem, compõem ou pintam conseguem escapar da loucura, da melancolia, do medo pânico, inerente à situação humana". Em que pesem suas ambiguidades ideológicas, recentemente explicadas pela circunstância de haver carregado a dupla máscara de intelectual de esquerda católica e agente do Serviço Secreto de Sua Majestade anglicana, Greene nos transmite o sentimento inexorável que, amiúde, nos força à expressão pela pena, a palavra ou as várias formas de arte - uma sublimação, uma catárse.

Minha própria atitude se aproxima da de George Orwell que, em um de seus ensaios, assegura-nos: "escrever um livro é uma luta horrível, exaustiva, algo como um ataque de alguma dolorosa enfermidade. Ninguém jamais empreenderia tal coisa se não impelido por uma espécie de demônio ao qual não se pode nem resistir, nem compreender". Orwell foi um dos que melhor exorcizou um dos mais tremendos demônios de nosso século, o totalitarismo. E por falar nesses espíritos que povoam em multidão a atmosfera infernizada da modernidade, vem-me à lembrança o famoso daimonion de Sócrates. Era um "bom" demônio ou, pelos menos, um espírito ambíguo que o impelia a agir e ensinar, nas ocasiões decisivas da existência, de conformidade com os mais rígidos padrões morais, até o ponto de arriscar a vida. Ele foi de fato executado - uma vítima inocente das paixões políticas e religiosas; um sacrifício menos cruento do que o de Cristo, certo - mas assim mesmo havendo suficientemente impressionado os primeiros pensadores cristãos a ponto de alguns chegarem a sugerir sua santificação.

Se válido é tal conselho terapêutico na literatura, na música, na pintura, seria igualmente precioso em filosofia. Acresce talvez um impulso pedagógico. Haveria, na filosofia, o desejo de compartilharmos com os outros, amigos ou desconhecidos anônimos, dos ensinamentos de sabedoria que, por ventura, estimamos com ou sem razão haver adquirido - em alguns casos como que por chamamento de uma força irresistível, um daimonion ou bafo do Espírito do Além, leve aragem como a de Isaías, ou ventania de tufão - que sempre, como dizem os Evangelhos, "sopra para onde quer"... Verdade: pode a transmissão ser aí puramente verbal. Três dos homens que, por seu exemplo e pregação, maior impacto tiveram sobre a história da humanidade, Sócrates, o Buda Siddharta Gautama e Jesus Cristo, nada escreveram, nada produziram em forma material, não deixaram escritos, apenas falaram. Ensinaram, porém, a discípulos que nos transmitiram sua mensagem iluminadora. Em seu aspecto ético/existencial, pode a filosofia ser privilegiadamente comunicada de modo puramente simbólico, pelo exemplo e a palavra - e, por motivos de tal índole, tanto a vida quanto a obra dos profetas são relevantes. A de Sócrates, no caso, foi paradigma da lição que deixou a seus discípulos, especialmente Platão. Pode também ser invocada em versos e é na literatura poética e de ficção que nos vamos deparar - como em Dante e Shakespeare, em Milton, Goethe ou Eliot, em Cervantes ou Dostoievsky - e, no Brasil, em Machado de Assis ou Carlos Drummond de Andrade - com alguns dos pensamentos mais profundos com que se enriquece a cultura humana, ainda que não formalmente expressos segundo uma metódica disciplina, hoje quase integralmente acadêmica.

O caso de Nietzsche é peculiar. Muitos lhe recusam o qualificativo de filósofo. Acham sua obra um simples produto de literatura, o que seria igualmente o caso de Kierkegaard. Mas em Dostoievsky, a forma do romance "policial" permitiu ao russo alguns dos pensamentos filosóficos mais extraordinários do século XIX, a ponto de alguns lhe atribuírem a expressão antecipada do Cristianismo do novo milênio. As maneiras de fazer filosofia são, afinal de contas, muito variáveis. Conhecido professor americano, descreve Alasdair MacIntyre a obra de Agostinho e Anselmo como de "filosofia como oração", a de São Tomás e Scotus Erigena como tomando a forma do debate intelectual escolástico, ao passo que a de Dante seria "filosofia como poesia", a de Spinoza "filosofia como geometria" e a de Hegel "filosofia como história". Freud e Jung são também considerados mais como escritores de ficção do que como cientistas. Freud nunca recebeu o Nobel, cujo galardão passou anos esperando, mas foi premiado com o Prêmio Goethe, o mais eminente da literatura na Alemanha. Jung nem isso.

O suíço, cuja ciência analítica da alma humana foi uma companhia quase constante em 60 anos de minha vida, muito insistia no esforço criativo de seus pacientes como método terapêutico. Expressar-se é certamente uma forma de cura mental. É o que pode dar sentido a uma vida introvertida na qual, de outro modo, seríamos vitimados pelos fantasmas sombrios e conteúdos depressivos que rodopiam, como encapuzados terroristas, em torno de nossa psique ou se escondem em nossa "Sombra", como a que Jung nos descreve. Gustave Flaubert afirmava algo semelhante a Greene e Jung, mas não encontro os termos exatos que usou. Quando sofria de seus humores neurastênicos, recorria à caneta para deles se livrar. Estudos de psicólogos de várias tendências concorrem na idéia do valor insubstituível da capacidade criadora que pode dar sentido à nossa breve e penosa passagem pela existência, livrando-nos dos espectros casmurrentos que nos cercam e reduzindo as perplexidades que nos trazem as ofensas, pecados, arrependimentos, frustrações, inibições, agressões, insultos e inferioridades com que tropeçamos no áspero caminho da viagem... Jung estabelece um correlacionamento íntimo entre a expressividade criadora do paciente e a ação psicoterapêutica do analista. O sábio de Zürich muito insiste na força de sua vocação como médico - o que já não era, por exemplo, o caso de Freud. Como quer que seja, terapia ou enfermidade, argumentava Camus que escrever é "por em ordem nossas obsessões". Mormente, acrescentaria eu, nossas obsessões metafísicas sobre o sentido do absurdo da vida, da morte e do mundo onde divagamos.

O psicoterapeuta é essencialmente um médico da alma e essa virtude representa a que dignificou Sócrates como educador e filósofo - sem que se possa distinguir os dois aspectos da personalidade do mais sábio de todos os ateniense, de todos os gregos e, quiçá, de quase todos os humanos. Quando invocava a maiêutica como método próprio de ensino da filosofia, lembrava Sócrates a profissão de sua mãe que era parteira. O termo grego maieutikos se origina em maia, "mãe, ama, parteira". A imagem é que ele, Sócrates, simplesmente ajudava seus jovens discípulos a de sua própria mente extrair verdades eternas que já lá naturalmente se encontravam em estado, digamos, de embrião. Outro elemento fundamental do socratismo, formulado por Platão e repetido nas teses de Voegelin, é a crença que as perturbações da alma individual refletem e, ao mesmo tempo, influenciam as desordens, perversões e crises do grupo social a que pertencemos. Acredito muito nessa idéia e pretendo por ela orientar-me neste esboço.

Muitos pensadores célebres têm afirmado não se importarem se são lidos ou não. Se serão reconhecidos ou não. Seria essa a melhor atitude, mas não seria também a mais difícil? Que o objeto criado corresponda ou não ao que o público espera e aprecia; ou ao que nosso próprio senso crítico pode ou não aprovar - nada disso importa. O que vale é ceder a um ímpeto irresistível de criação que se satisfaz por si mesmo. Um grande número de escritores, mormente entre os mais inseguros, imagina deva sua genialidade receber um reconhecimento póstumo. Em alguns casos, é verdade que tal reconhecimento não se revela em vida, o que é uma tragédia da existência como foi para Kierkegaard e Nietzsche, por exemplo. Nietzsche compreendeu que algumas de suas reflexões eram inoportunas, estavam fora de sua época (Unzeitgemässe Betrachtungen, 1873), não pódiam ainda ser compreendidas. Essa ausência quase total de reconhecimento em vida lhe afetava terrivelmente o amor-próprio e muito contribuiu para o colapso mental que encerrou sua vida ativa. Permitam-me novamente lembrar Flaubert, desabusado como de costume: "A menos que se seja um cretino, morre-se sempre na completa incerteza de seu próprio valor e do valor de sua obra". Tal incerteza é nossa sina, é a dúvida perene do pensador e escritor um pouco mais sério que nunca pode adivinhar se é ou não cretino - e se será ou não incluído na galeria do Imbecil Coletivo composta por Olavo de Carvalho....

O que nos importa é o ato em si, o trabalho de gestação, o parto espiritual! Sentimo-nos então como que transportados a um outro mundo, a uma outra realidade, a outra esfera celeste transfigurada por nossas imagens e pensamentos, a visão na perspectiva de um outro universo além daquele em que, na modorra, vivemos a vida banal de todos os dias. Um Universo transcendente, além do da cosmologia? Talvez façamos filosofia quando, conscientemente, procuramos vislumbrar os contornos desse universo através das brumas espessas da própria ignorância. Pois "o amor da sabedoria" é algo que, fundamentalmente, independe de estudos acadêmicos e pode ser descoberto, em alguns casos, até mesmo no meditar de um velho caboclo analfabeto. Passou o tempo em que só um "professor de filosofia" podia ser filósofo. Repitamos: Sócrates era um vagabundo de pés descalços, filho de uma parteira, que passeava pela Ágora de Atenas fazendo perguntas idiotas aos jovens ociosos e criticando os heróis da pátria, Milcíades, Temístocles, Péricles, que haviam construídos muralhas, armado esquadras, edificado monumentos, mas se esquecido da defesa da Justiça e da Liberdade. Jakob Boehme era um sapateiro, já o dissemos. E Nietzsche só escreveu grande filosofia depois de largar a cátedra que ocupava na Universidade de Basiléia, para percorrer a Itália e a Engadine suíça como turista erudito que, com dinamite ou a golpes de martelo, escrevinhava compulsivamente seus aforismos explosivos em pedaços de papel. Quanto ao caboclo nosso irmão, lembro-me de haver lido um dia, na Rio/Brasília, na traseira de uma jamanta - onde os caminhoneiros costumam constelar sua sabedoria ambulante - a seguinte frase memorável: "Para que tanta prosa se no fim é a morte?". Não é digno do Eclesiastes?

Tudo isso justificaria a tese de Karl Popper, já acima qualificado como um dos maiores pensadores do século, que propunha a existência de três Mundos. Interpreto a tese popperiana do seguinte modo. O primeiro mundo é o mundo da realidade objetiva, fora de nós - o espaço exterior em três dimensões, observado pelos sentidos, vivido na Ação e investigado pelas ciências naturais. O segundo mundo é o que existe em nós mesmos - no "Eu" de nossa consciência, no universo subjetivo de nossa memória, ações presentes, sentimentos, emoções e expectativas futuras; é o mundo que se estende na dimensão do tempo e persiste no temps durée de Bergson - o Tempo que corta perpendicularmente o primeiro mundo em movimento linear irreversível, no ponto exato em que Eu, presentemente, me encontro hic et nunc. E o terceiro mundo dos que contempla Popper é o de nossas teorias e criações intelectuais. É aquele universo mental, abstrato que, transmitido pela palavra escrita, ouvida, gravada ou representada, configura um universo espiritual que existe em nós e fora de nós, nos sobrevive e permanece após também ter sido salvo do passado que já se foi, em livros, monumentos, quadros, partituras, filmes, fotos, discos e memória megabytes de computador - mundo no qual acrescentaríamos as Artes e que representaria a própria permanência ou sobrevivência da cultura humana. Diziam os romanos: littera scripta manet - a palavra escrita permanece. Os chineses clássicos possuíam tamanho respeito pela palavra escrita em seus ideogramas, dezenas de milhares deles acumulados durante séculos, que sentiam um verdadeiro constrangimento na destruição de qualquer papel em que aparecesse algo escrito. Cuido de novamente mencionar Popper. Sir Karl acentuava que, se por um cataclismo qualquer, natural, ecológico ou bélico, a civilização viesse a desaparecer, sobrando contudo uma única biblioteca bem guarnecida, a Library do Congresso em Washington por exemplo, com seus quinze ou vinte milhões de livros, ou a do British Museum, ou qualquer das grandes universidades ocidentais, poderia a Humanidade, em poucos anos, recuperar o nível de civilização a que havia anteriormente atingido.

Afirmemos que, nos termos de Jung, cria o Inconsciente um liame entre o insignificante e transitório Eu consciente, do presente "Aqui e Agora", e aquela entidade eterna omnipotente e personalizada a que se dá o nome de Deus e com a qual nos é facultado o diálogo - geralmente por intermédio do Inconsciente, como nas intuições fundamentais da Revelação e nas visões vertiginosas dos profetas. Em termos de memória coletiva, o Terceiro Mundo de Popper não é a mesma coisa. Popper é um positivista, não nos esqueçamos. No meu entender, seu Terceiro Mundo representa a cultura universal, consistindo naquela parte concreta, temporal e terrena, de um Sentido mais vasto, em eterno crescimento com as "almas" de todos os homens que já viveram e através de cuja memória não mais Eu, mas Nós, todos nós, humanos, a Humanidade, nos movemos através da história em direção a um Fim último, desconhecido mas cuja definição progressiva configura, precisamente, o propósito do Espírito. Como Voegelin parece entender, seria a Filosofia o instrumento intuitivo pelo qual as sucessivas Revelações que de si mesmo fez o Ser transcendente nos atingem e educam. As Revelações nos ajudam a conceber esse Fim. Assim planejamos às escuras o caminho a trilhar para alcançá-lo. Eis por que toda grande filosofia deve, simultaneamente, ser uma Psicologia, uma Teologia, uma Cosmologia e uma Ética.

Ora, qualquer uma dessas veneráveis disciplinas deve começar, como sabiamente aconselhava Sócrates, pela obediência ao sagrado imperativo do Apolo de Delfos, o conhecer-se a si-próprio - Gnothe seauton. Imperativo que igualmente colocava no início de sua meditação religiosa, com o conselho de não a procurarmos lá fora, mas introvertermo-nos, pois é no interior do homem que habita a verdade:

Noli fora ire, inteipsum redi; in interiore homine habitat veritas.



ANAMNESIS

Obedeçamos pois ao princípio introspectivo, abeberado junto à fonte de Castália cujas límpidas águas permitiram à pitoniza vaticinar a sabedoria de Sócrates. O autor é, neste caso, um brasileiro, carioca, nascido em 1917 - ano fatídico que foi aquele em que terminou a maior batalha da história, Verdun, setecentos mil mortos; se iniciou a Revolução russa, que instalou no poder o regime soviético, sessenta milhões de mortos; e entraram os Estados Unidos na Grande Guerra, dez milhões de mortos, preparando-se para a posição de potência hegemônica do século XX. Num contexto de algum modo ordenado com idéias cartesianamente "claras e precisas", procurarei salientar a correspondência entre as posturas filosóficas e ideológicas, adotadas como contraponto das peripécias da história do planeta, e o decorrido durante os mais de sessenta anos que entremeiam os albores de minha sensibilidade política e o crepúsculo fatídico ora atingido. Foram sessenta anos que tornam tarefa imperativa e urgente traduzir metodicamente os milhares de páginas, escritas e acumuladas ao Deus dará, na memória e no papel, em algo que faça sentido.

O problema psicológico da constelação familiar que me educou é desde logo, neste contexto, relevante. Minha Mãe era filha de um artista português, Frederico Nascimento, originário de Setúbal, que viera ao Brasil dar concertos de violoncelo, casara no Rio Grande do Sul e aqui permanecera, lecionando no Instituto de Música do Rio do qual se tornaria Diretor, praticamente até morrer. Foi mestre da maior parte dos grandes compositores brasileiros. Desse lado da família, foram meus tios incorrigíveis boêmios. Todos morreram cedo, como acontecia na época do Romantismo luso-brasileiro, de tuberculose - e um deles nos deixou com dois irmãos adotivos. Contrabalançando a disciplina paterna, deparei-me portanto com o exemplo de um liberalismo artístico que minha Mãe fortemente corrigia, quando necessário, com as estrituras de um código moral raramente violado. O ambiente de estúrdia sem periculosidade pendia francamente, desse lado, para a atmosfera psíquica em que dominava o intuitivo, o afetivo, o incoerente, o musical e o estético.

O componente político e religioso do complexio oppositorum não era banal. Originária do litoral norte de São Paulo, S. Sebastião e vale do Paraíba, a família de meu Pai, Gonçalves de Araujo Penna, era enorme (tive mais de quarenta primos irmãos). Tipicamente pequeno-burguesa, algo provinciana e conservadora, donde fortemente católica (um primo foi bispo e uma prima superiora de convento do Sacré Coeur) - ela gerou contudo um setor radical (um almirante linha-dura, Levy Reis, e um guerrilheiro urbano, Daniel Aarão Reis no período repressivo do general Médici). Desse lado, o pedigree mais relevante é o da avó paterna, Joana de Meira. Segundo ouvi de um provável primo longínquo, o general Meira Mattos, os Meira procedem de um tronco galego (da Galícia espanhola) mas são também descendentes de um dos primeiros povoadores do Brasil, João Ramalho, cujos rebentos se estenderam de São Vicente para aquela área paulista.

Meu pai na adolescência fora republicano. Contava-me que, ainda garotinho, costumava correr atrás da carruagem do Imperador, a partir do Largo de São Salvador onde morava a família, quando Pedro II ia visitar a Princesa Isabel e o conde d´Eu no Palácio Guanabara. Dava então um heroico "Viva a República" - grito que Sua Majestade acolhia, detrás de suas venerandas barbas brancas, com um sorriso galhofeiro de boa vontade e um paternal aceno da mão. O pendor republicano e autoritário paterno iria combinar-se com uma grande admiração por Floriano. Estava no sangue, se poderia dizer. Um irmão mais velho, Antonio de Araujo Penna, foi como estudante de medicina aprisionado pelos marujos rebeldes no combate da Ponta da Armação, ao tempo da Revolta da Esquadra. O florianismo estendeu-se ao positivismo e converteu-se, na vida de meu pai, em amizade e admiração pelos sucessores de Júlio de Castilho, especialmente Pinheiro Machado. Apoiou também o Marechal Hermes da Fonseca, ainda que amigo de Rui Barbosa. Veio mais tarde o interesse, superficial embora, por temas relacionados com o pensamento de Augusto Comte - divagações positivistas que foram estimuladas durante sua permanência em Paris.

Embora sem qualquer comprometimento político, mas por convicção invariável e temperamento favorável aos poderes constituídos, inclusive o poder algo arbitrário e policialesco à época do Presidente Artur Bernardes - meu pai não hesitou em se entusiasmar com a revolução de 30, dita "liberal", uma fraude que trouxe ao poder o chefe castilhista gaúcho Getúlio Vargas. Lembro-me claramente desse período de agitação que se agravaria nas três ou quatro décadas seguintes - o ciclo turbulento da grande crise do sistema político brasileiro, a lenta e árdua transição, longe de encerrada, de um regime patrimonialista autoritário, incompetente, corrupto e bom-moço, herdado do colonialismo português, para um sistema democrático de modelo norte-americano. Em 1932, recordo acaloradas discussões em casa, com referência à repressão do movimento constitucionalista de São Paulo.

Comecei portanto a vida na atmosfera criada pelo temperamento autoritário, de pavio curto e veleidades positivistas de meu Pai, com seus preconceitos castilhistas concernentes às vantagens da "ditadura republicana", sua admiração pelo Marechal Floriano e os ensinamentos de Oliveira Viana sobre o valor instrumental do governo forte, militar se necessário, no estágio de desordem em que se encontrava - e, aliás, até hoje se encontra o Brasil. Bem no centro do contencioso ideológico do século, foram décadas de progressiva evolução na vaga direção do liberalismo de que, a princípio, não me dei conta. Mas quem não evoluiria de tempos em tempos, mudando de opinião num tal largo decurso cronológico, ainda que sempre orientado numa constante direção? À medida que crescia em idade e hierarquia, mais impaciência me causava a irracionalidade estúpida do Dinossauro burocrático, o Leviatã de corpo imenso, cérebro minúsculo e reações extremamente lentas a qualquer estímulo. A concretização da negativa em seguir o "caminho da servidão" por Hayek denunciado, iria ocorrer muitas décadas depois, já aposentado. A irritação que sempre me causou a irracionalidade e irresponsabilidade de nosso povo - "ce ne sont pas des gens sérieux" do polêmico aforismo gaullista - me inspiraria, mais tarde, a tentar uma explicação ou justificativa do caráter nacional, sem porém deixar de me colocar em atitude contenciosa com a realidade que era chamado a considerar, quando enfrentando não a intelligentzia, mas a burritzia tupiniquim...

O Catolicismo de meu Pai era superficial, o que quer dizer, pendia muito mais para o mundano (no sentido de la bonne société), do que para o místico - em contraste considerável com o que então se chamava de atitude "livre pensadora" da família de minha Mãe. A ausência de religiosidade do componente materno correspondia à de seu próprio Pai lusitano, o que contribuíu para praticamente me privar de educação religiosa. Uma tal ausência pode, às vezes, ter menos consequências do que uma reação radical à opressão das beatas. Lembremos que dois dos mais eminentes "gnósticos" do século passado e do atual foram Nietzsche e Jung, ambos filhos de pastores protestantes. Consequentemente, minha própria jornada religiosa foi ziguezagueante, contraditória e atravancada.

Social e culturalmente, o ponto chave foi a circunstância que, nos dez primeiros anos de vida, vivi num ambiente de elegante bem-estar e fartura burguesa, acumulados por meu Pai. Era ele dono de uma indústria farmacêutica homeopática que se ampliou com a substituição de importações ao tempo da Iª Guerra Mundial. A residência onde nasci, um pequeno "palacete" com torrezinha e tudo, à Avenida Oswaldo Cruz, então uma das mais aristocráticas do Rio, era acrescida de uma velha casa em Petrópolis, na rua Ipiranga, hoje tombada, onde fugíamos da canícula carioca.

Eu tinha dez anos de idade quando meu pai nos levou, toda a família, para a Europa. Permanecemos três anos em Paris, de 1927 a princípios de 30, e durante esse período excursões ocasionais à Itália, Suíça, Alemanha, Bélgica, Holanda e Espanha infectaram-me com o vírus da aventura turística de que sofro até hoje. Na verdade, posso penetrar em meu próprio Inconsciente e descobrir uma espécie de procura irreal obstinada do Graal, que deve estar escondido alhures, em algum recanto obscuro de um qualquer dos cinco continentes. Em meus sonhos, paisagens desconhecidas de alguma terra ignota em que penso haver vivido, em outra encarnação, são temas recorrentes, imagens oníricas de sempre. Tomei, de qualquer forma, um gostinho de Europa, um sabor de civilização que jamais me largou. Foi influência decisiva na escolha da diplomacia, a única carreira que, à época no Brasil, granjeava uma abertura, digamos existencial, à cultura universal.

Em Paris, logo naturalmente desenvolvi o gosto pela cultura e o conhecimento da língua francesa que já principiara a conquistar no Lycée Français, no Rio de Janeiro, e com uma governanta que esteve agregada à família de 1927 a 1987, durante sessenta anos! Na capital francesa, cursei o Liceu Janson de Sailly, localizado no elegante bairro de Passy, rive droite naturalmente. No Janson, adquiri alguma experiência na língua e cultura, juntamente com o gosto pela história - disciplina cuja aprendizagem foi decisivas à vocação para a carrière, com a formação intelectual e alguma erudição francófila que posso reclamar. Em princípios de 1930, entretanto, a crise econômica e a desvalorização cambial, reflexos da Grande Depressão e dos problemas do café, obrigaram meu pai ao melancólico retorno ao Rio de Janeiro, tendo eu então doze anos. Algo mais traumatizado ficara, porém, com a ruptura da família e a separação semi-litigiosa de meus pais - minha mãe, irmã e os dois irmãos adotivos permaneceram em França por mais três anos.

Chegando assim à puberdade e adolescência, ia se caracterizando o interesse emergente por outras áreas da política, da psicologia e do pensamento filosófico. Foi nesse período, dos 14 aos 18 anos, que comecei a ler Freud. Eu mantive uma lista cronológica de tudo que leio durante praticamente toda a vida. Posso assim avaliar as variações das tendências de minha curiosidade. A psicanálise me impressionava de modo ambivalente, tanto como fascínio quanto pelo desagrado com o redutivismo obsessivo do sexo, destilado pela obra de Freud. Principiavam a desenhar-se, concomitantemente, os aspectos negativos do complexo de Édipo. Mais apropriadas contudo, na realidade, me pareciam as teses dissidentes de Alfred Adler sobre o "complexo de inferioridade" e as reações do "protesto viril", pois a extrema introversão (inata ou adquirida?) me escarmentava com uma timidez quase doentia - situação a que melhor se adaptava a hipótese adleriana, inspirada em Nietzsche. A leitura da obra de Bergson encetou a fascinante aventura de incursões cada vez mais ativas no campo do que já se poderia qualificar como um arremedo de pensamento filosófico. Tambem na época, além de leituras de história e literatura vária (uma mania de H.G.Wells por exemplo, que durou alguns anos), muito lí Keyserling. Na época, o pensador teuto-russo gozou de certo prestígio, hoje está quase olvidado. Suas "Meditações Sul-americanas", no entanto, configuram uma análise das melhores que foram jamais feitas sobre o Brasil, nossa mentalidade e cultura.

Foi também por essa época de delírios imaginativos da adolescência que me entusiasmei pela ciência em geral e a astronomia em particular, graças a um livro de divulgação popular da ciência pelo astronomo e publicista Camille Flammarion. Cheguei a construir uma espécie de pequeno telescópio, com uma luneta montada em aparelhagem de Mecano. A Lua mais me atraía como objeto de pesquisa visual e divagações futuristas de viagens "espaciais" ao satélite, do que como "atalaia ofélica dos viajores perdidos" da imaginação poética. Muitos anos mais tarde, o problema dos OVNIs, dos E.T.s e da pluralidade dos mundos habitados voltou a intereesar-me e escrevi um livro de ficção, de tom humorístico, com o título URANIA, para o qual não encontrei ainda editor. A ciência (para satisfação de minhe Mãe, que fora amiga de Charles Richet, um dos grandes sábios do século, descobridor da anafilaxia e Prêmio Nobel em 1913) permaneu como curiosidade paralela no correr da vida.

Entretanto, a consciência política só principiou a brotar aos sobressaltos em 1935, após o Vestibular para a Faculdade de Direito, então localizada num pardieiro da rua do Catete. Com entusiasmo passageiro, eu havia lido uma obra do socialista francês Jean Jaurès - assassinado em agosto de 1914 por ser germanófilo. Na Faculdade - e já então com 17 anos - descobri a existência de uma crescente dicotomia ideológica, um verdadeiro maniqueísmo de horrendos resultados históricos, pois deixou um vírus que contaminou o século. A década dos 30 iria configurar o violento confronto dos "extremismos", como assim eram então classificados, que se radicalizou com a Guerra Civil espanhola, um dos estopins da IIª Guerra Mundial. No Brasil, facultou a ditadura varguista… A sedução da parte mais considerável do corpo discente pelo canto de sereia do romantismo dito de "esquerda" - o comunismo que não gostava de se identificar como tal - foi seu reflexo saliente na Faculdade. Eles acompanhavam os professores Leônidas de Rezende, Hermes Lima e Castro Rebelo em sua gororoba positivista/marxista. Leônidas de Rezende era o mais popular. Suas aulas de Introdução à Ciência do Direito faziam uma teimosa distinção simplória entre o que ele chamava os "bons filósofos", os monistas, e os "maus filósofos", os dualistas. Entre os bons monistas, defendendo as Termópilas da ideologia, destacavam-se Demócrito, Lucrécio, Spinoza, Bruno, alguns enciclopedistas franceses, creio, Rousseau e depois Marx, Engels, Comte, Darwin, Trotski e Haekel, um biólogo de segunda categoria que despertava enorme interesse no emérito catedrático. Entre os "maus" dualistas se alinhavam, naturalmente, Platão, Aristóteles, Santo Tomás e, na modernidade se não me engano, Kant, Bergson e alguns outros - todos atirados ao Aqueronte do obsoletismo reacionário. Um outro grupo de estudantes, formados em ordem unida à "direita", se congregava em torno do professor "nacionalista" Alcebíades Delamare, cognominado "o Pátria Amada". Um terceiro grupo, provavelmente o mais numeroso e com certeza o mais prudente, abstinha-se de tomar partido: era o dos neutros, democratas ou, ocasionalmente, os varguistas e candidatos a emprego público, que brilhavam pelo silêncio total e pesado. Posteriormente aos eventos de 1935, foram Hermes Lima, Castro Rebelo e Leônidas demitidos da Universidade. Hermes Lima, porém, chegou a ser Primeiro Ministro, Chanceler e Ministro do Supremo no Governo Goulart, em 1962/63. Nas eleições para o Diretório Acadêmico foi eleito uma cintilante figura que já se distinguia nos estudos, na retórica e na empáfia. Seria, mais tarde, meu colega no Itamaraty. Tendo entrado para a carreira em concurso ulterior, eu só o conheceria pessoalmente em 1953/54, em condições particularmente polêmicas, ambos Secretários de nossa Missão junto às Nações Unidas em Nova York. Recordo igualmente de uma bem concorrida conferência de Gilberto Amado no Centro Oswald Spengler - que presumo se destinava a angariar simpatias para o eterno Chefe do Governo Provisório, prestes a enfrentar um dos mais sérios desafios à sua liderança.

Foi ao final desse primeiro ano acadêmico de 35, ou mais exatamente no dia 27 de novembro, que se registrou a chamada "Intentona" comunista, de importância decisiva na evolução de minhas convicções políticas. Não me vou estender sobre as origens do movimento, o que não cabe nestas memórias. Registro apenas que, nessa época, vivia minha mãe, seus dois sobrinhos, irmãos adotivos, e minha irmã Maria Cecília, numa rua da Urca, Ramon Franco, que, saindo da Avenida Pasteur, se defrontava com o quartel do 3º Regimento de Infantaria, sediado num antigo pavilhão de exposições da Praia Vermelha. Eu morava com meu pai em Copacabana. Por volta das duas e meia da manhã, fomos despertados por um telefonema de minha mãe que, apavoradíssima, anunciava estar sua casa recebendo balaços do tiroteio infernal que arrebentara no quartel próximo. Dizia-se temerosa pela própria vida e a de seus filhos. Deitados todos no chão da sala de visitas, assim se protegiam da metralha.

O dia estava escuro, chovera pela manhã. O caminho barrado no Mourisco pela artilharia legalista que bombardeava os rebeldes. Só à tarde, por volta das dezesete horas, me foi possível alcançar a Urca e visitá-los. A casa apresentava, efetivamente, o estrago de buracos de bala e toda a área da Avenida Pasteur oferecia o espetáculo lamentável de um campo de batalha - galhos no chão, vidros quebrados, um automóvel destruído e queimando, sujeira por toda a parte e, no fundo, na perspectiva da própria avenida Pasteur, a cúpula do edifício do quartel em chamas. Acabava de passar, naquele momento, um grupo de oficiais revoltosos. Aprisionados e acompanhados pelas tropas do comandante da Vila Militar que suprimira a rebelião, o general Eurico Gaspar Dutra, futuro Presidente, os rebeldes não pareciam acovardados. Estavam maravilhados com a farra. O sangue os embriagara…O que mais me irritou porém, ao sair da casa materna, ainda traumatizada com o drama vivido, foi encontrar um grupo barulhento de colegas da Faculdade, conduzidos pelo acima aludido Presidente do Diretório Acadêmico, às gargalhadas diante do espetáculo teatral que haviam presenciado. Eu estava reagindo, ao contrário, com indignação. A brutalidade inédita do conflito me parecia absurda. A reação emocional foi agravada quando assisti à passagem de soldados feridos que enfermeiros militares e civis tentavam carregar até uma ambulância próxima. A vista do sangue me nauseou - um sintoma frequente na adolescência, encobrindo quiçá uma agressividade recalcada. A repulsa pelo ocorrido se agravou, dia seguinte, ao ler nos jornais sobre o alegado assassinato de seus colegas de quartel que dormiam, pelos oficiais revoltosos que assim pretendiam no assegurar o sucesso do golpe.

A "Intentona" teve consequências históricas relevantes. Detrás das polêmicas que provocou, sabemos hoje, graças à documentação obtida em Moscou após o colapso da URSS em 1989/91, que o movimento fôra preparado com destacada inépcia. Líder do golpe, o camarada Luís Carlos Prestes havia persuadido os dirigentes do Comintern que, mergulhado na desordem após a Revolução de 30, estava o Brasil maduro para uma revolução de estilo jovem do Exército, liderada pelos "tenentes", aderiria ao chamamento carismático do bolchevista ou mexicano. Não deviam esperar qualquer reação militar, eis que a oficialidade "Cavaleiro da Esperança" e derrubaria o desprestigiado Presidente da República. Assim mal preparado, o putsch no Rio de Janeiro foi conduzido por uma dúzia de cabecilhas que, na Escola de Aviação do Campo dos Afonsos e no quartel da Praia Vermelha, foram facilmente desbaratados, respectivamente pelo então coronel Eduardo Gomes e pelo general Dutra. No Nordeste, a repressão foi ainda mais fácil. Em Natal, um rico "coronel" e futuro Senador, Dinarte Mariz, liderara uma centena de jagunços, arregimentadas das fazendas vizinhas, os quais em meia hora puseram a correr os mal armados e comandados pobres diabos que haviam ocupado a capital do Rio Grande do Norte. Ficção ou não, o assassinato dos colegas que dormiam no quartel do 3º Regimento ao se iniciar o levante, repercutiu de modo profundamente negativo entre as Forças Armadas, gerando um trauma saudável, até hoje não arrefecido. Sem imaginar o erro cometido, os partidário do líder do PC criaram um mito diametralmente contrário ao da Grande Marcha da Coluna Prestes, injetando um anti-vírus que para sempre imunizou grande parte do Exército do credo totalitário. É possível que, sem o 27 de novembro, não teríamos tido uma oficialidade tão visceralmente anti-comunista quanto aquela que, décadas mais tarde, derrubaria os epígonos calhordas do esperançoso Che Guevara brasileiro, junto com Goulart, Brizola e companhia. A repressão da Aliança Nacional Libertadora serviu, além disso, ao espertíssimo Getúlio para, na surdina, preparar sua versão particular da "Ditadura Republicana" castilhista - assegurando-se do apoio da "direita", no Exército e no movimento Integralista, para o próprio golpe que cuidadosamente aprontava.

O sentimento de revolta diante do ocorrido com um levante de objetivos tão contestáveis se externou, dois ou três meses depois, pela minha inscrição na Ação Integralista Brasileira. Do movimento do Sigma participei até novembro de 1937 - durante dois anos portanto. Foi um período em que frequentava superficialmente a Faculdade e me encontrava, simultanea e pesadamente, ocupado com os estudos intensivos para o concurso do Itamaraty. O desvio para o caminho do suposto "fascismo" tupiniquim, vestindo uma camisa verde e aos gritos de "anauê!", não teria sequelas duradouras em minha mente, como veremos a seguir. Teve-as, porém, na carreira. Adquiri na Casa a reputação de "fascista reacionário" que me acompanhou durante os quarenta e tantos anos seguintes.

Na realidade, a alternativa de um coletivismo belicoso, uniformizado e algo ingenuamente patrioteiro, para combater um outro, terrorístico, cafajeste e desclassificado, só podia conduzir a um impasse. A verdade é que, nesses dias de 1935, começava a medrar uma idéia que exigiria décadas para florescer em minha mente: a que o caminho a trilhar seria repleto de repugnantes contradições entre o Leviathan - o Estado burocrático, totalitário e interventor, o "mais frio de todos os monstros frios" como o descreveu Nietzsche, de um lado - e o Behemoth da multidão revolucionária, arruaceira, ululante e destruidora do outro. Fortaleceu-se em mim, na verdade, uma entranhada ojeriza a esses aspectos, antitéticos mas complementares, da famosa "rebelión de las masas" a que se referiu Ortega. Não sei o que é pior, se a visão de cem mil nazistas perfilados em perfeita formação geométrica diante da Cruz Gamada num campo de Nuremberg, para o congresso do Partido (ou espetáculos semelhantes nos desfiles militares da Praça Vermelha em Moscou, ou do "Exército Popular" da Coréia do Norte em Piong Yang); ou a de uma multidão vociferante de cem mil baderneiros percorrendo uma artéria urbana, gritando slogans, quebrando janelas, enfrentando a polícia (que, geralmente, "reage com brutalidade", como argumentam os locutores de televisão) e procurando derrubar De Gaulle no Quartier Latin ou Castello Branco na avenida Rio Branco. Este último tipo de espetáculo só por duas vezes me entusiasmou: quando um jovem estudante dissidente deteve um tanque na praça da Paz Celestial, em Beidjing, e quando o ditador Ceaucescu foi vaiado pela multidão, poucos dias antes de ser detido e fuzilado pelo exército em Burareste. A política, a meu ver, é isto: a arte de navegar entre Scylla e Charybdis, o que quer dizer o Leviathan do Estado absolutista e o Behemoth da multidão desembestada. Acabei reconhecendo o trágico dilema. Algumas vezes temos que utilizar os préstimos de um dos monstros para derrubar o outro. Behemoth para derrubar Ceaucescu, por exemplo; Leviathan para derrubar a canalha, como o fizeram Franco, na Espanha, e Pinochet no Chile. O recurso é, contudo, invariavelmente perigoso, extremamente perigoso...

Não pretendo haver compreendido Nietzsche. Li o "Zarathustra" em estado de semi-embriaguês intelectual, numa adolescência solitária e tímida. Em sua "Genealogia da Moral", Nietzsche bem descreve a repressão institucionalizada que a Moral do Rebanho, Herdenmoral, impõe não apenas à "psicologia de massas" do Fascismo, como querem os fátuos gurus ideologicamente condicionados pelo Neo-marxismo da Escola de Frankfurt, mas à psicologia de massas de todo totalitarismo, esquerda ou direita - de linha mussoliniana, hitlerista, leninista, maoísta, fidelista ou chavista. Talvez a aversão simultânea a toda baderna desordeira e a toda submissão à estupidez da rotina burocrática plantava o germe de uma eventual conversão libertária - sendo entendido que o preço da liberdade está, justamente, na disciplina de uma ordem interior, admitida e responsável. A Ética da Responsabilidade de que falou Weber, Verantwortungsethik.

Recordo um pequeno episódio que, com o passar dos anos, hoje me diverte pelos seus paradoxos. Meu "Chefe" no Departamento de Relações Internacionais da AIB era o Antonio Gallotti, personalidade admirável que se ia tornar, futuramente, um advogado famoso, o rico e poderoso Presidente da Brazilian Traction, a "Light" de augusta memória. Com ele e com seu "vice", o hoje igualmente notório Gerardo Mello Mourão, fomos ao Hotel Glória para entrevistar um intelectual ianqui, Samuel Putnam. Depois de explicarmos os propósitos do Integralismo, o prestigioso tradutor da literatura brasileira, manifestou-nos amigavelmente a opinião que o valor supremo era a Liberdade. Ao sairmos da entrevista, comentamos como anacrônico era o tipo - sem nos darmos conta, evidentemente, que poucos anos depois estaríamos nós mesmos, Gallotti e eu, convencidos da justeza de sua postura… Putnam, no entanto, já era ou se tornou marxista, uma contradição...

Mas voltemos à cronologia dos eventos. O golpe de 10 de novembro de 1937 foi um dos planos maquiavélicos mais bem arquitetados que regista a história, não só a do Brasil mas de toda a América Latina. Não cuido de me deter aqui sobre o episódio. Basta lembrar que, logo depois de "decretado" o Estado Novo, um outro decreto ditatorial aboliu todos os partidos e todos os movimentos políticos, inclusive a própria Ação Integralista Brasileira que sustentara as ambições do ditador. O movimento foi eliminado sem dar um pio. Nada de autenticamente "fascista" nessa passividade… Dei-me conta então de quão tola, ridícula e humilhante havia sido minha própria participação na "marcha dos 50.000" que, dez dias antes do golpe, haviam percorrido o trajeto da praça Mauá a Botafogo, entrando pela ruas das Laranjeiras e Pinheiro Machado, e desfilando aos gritos de "Anauê!" diante do palácio Guanabara. Lá na sacada estava o gordinho genial, com seu eterno "sorriso da Gioconda", ladeado pelo general Newton Cavalcanti. O comandante da guarnição da Vila era o mesmo que a ingenuidade de nossos "chefes" havia convertido num cripto integralista, pronto para sustentar a AIB com mão forte, caso algo atrapalhasse a antecipada "tomada do poder". Registro apenas o sentimento de desgosto, frustração e certa dose de ira pela "traição" do Getúlio, sentimento que veio imediatamente à tona na mesma noite de 10 de novembro, quando o Pai dos Pobres fez seu discurso monótono, justificando seu "Estado Novo" patrimonialista-castilhista-personalista - sem uma palavra siquer de agradecimento pelo apoio que recebera daquele que transformara, da noite para o dia, em palhaço impotente, Plínio Salgado, o fracassado "Condestável" do Brasil integral.

Os ressentimentos explodiriam em maio do ano seguinte. O malogrado putsch, comandado por um oficial que nem mesmo era integralista, o capitão Fournier, contra aquele mesmo palácio Guanabara perante o qual havíamos desfilado seis meses antes, foi um exemplo prodigioso de golpe de mão inacreditavelmente mal concebido e executado. Mais aguda humilhação secretamente ressenti quando, pouco tempo depois desses eventos, fomos todos, os funcionários do Itamaraty como os de outros ministérios, "convidados" a participar de outro desfile, desta vez no campo do Fluminense, contíguo ao palácio, para homenagear o ditador o qual, na ocasião, abriu o sorriso galhofeiro em larga e satisfeita gargalhada: tinha razões de sobra para isso…

A monumental rasteira que o caudilho, no qual ia o Brasil "depositar sua fé e esperança", perpetrara, não só contra o Integralismo, mas contra os "liberais democratas" (Armando Sales Oliveira, o coronel Euclides de Figueiredo e Otávio Mangabeira, entre outros, que contra ele conspiravam, incluindo maragatos e chimangos como Flores da Cunha e talvez mesmo João Neves da Fontoura e Borges de Medeiros), comportou o primeiro desapontamento memorável de minha carreira de "observador engajado". Custou-me décadas para perceber o que se passara. No fundo, o Getúlio não fora só culpado de introduzir no país o autoritarismo positivista de Júlio de Castilhos, antes confinado ao Rio Grande do Sul. Acoplado com o caudilhismo gaúcho, de indisfarçáveis raízes hispânicas e perversas consequências no reforço trazido ao patrimonialismo e clientelismo tradicionais de nosso sistema político, "o Pai dos Pobres" (e "mãe dos ricos"…) criara um poderoso precedente sebastianista que legitimou o corporativismo institucionalizado e até hoje nos afeta, sessenta anos depois. O Jânio utilizou o paradigma de modo inepto e tresloucado. O calhordíssimo Brizola carregou posteriormente o fantasma, ladeando o Lula. Este Neanderthal ainda tenta fazê-lo.

Mesmo no Brasil, em que pese nosso temperamento mais cordato e submisso, conhecemos pela primeira vez a figura do caudilho-tipo na pessoa deste "Dr." Getúlio. (Incidentalmente, "Dr." foi o máximo título nobiliárquico concedido pela República, como o de "Duque" no Império, que só Caxias recebeu. Na República tivemos dois Doutores, Getúlio e Ulysses, ambos responsáveis pelos dois maiores monstrengos constitucionais de nossa história, as Cartas de 1937, a "polaca", e de 1988, a dos "miseráveis"). Me havendo deixado virtualmente seduzir, na adolescência, pelo apelo do coletivo e contaminar de ideologia - passei depois longos anos para me imunizar e purificar do vírus das multidões, organizadas ou caóticas. Não que dedicasse uma particular admiração, fidelidade ou devoção reverente por qualquer dos políticos que se projetaram na ribalta. Nenhum jamais para mim representou qualquer tipo de figura paterna ou "Grande Irmão" que atraísse os eflúvios libidinosos das massas, como Freud sugerira em seus ensaios de Psicologia Coletiva. Pouco igualmente cheguei a bem conhecer ou compreender o Getúlio. Mais perplexo ainda ficava ao assistir, no noticiário visual então transmitido pelo cinema, a histrionice aterrorizante do Führer alemão, a teatralidade meridional, algo ridícula, do Duce de ópera italiana, ou a figura do tártaro enigmático, o Tio Zéca Stáline. Tiveram eles vários epígonos, no Brasil e alhures, mas todos passaram a me causar verdeiro asco.

Quanto à única oportunidade de contacto direto mantido com o "Dr." Getúlio, vale a pena descrevê-la. Em meados de 1940, pouco tempo antes da partida para o primeiro posto no exterior, fui promovido "por antiguidade". Era uma promoção automática, resultante do aumento dos quadros do pessoal que não comportava qualquer favor a mim concedido pelas autoridades. Mas por simples questão de boa educação, resolvi acompanhar ao Catete os outros colegas, da promoção "por merecimento", para "agradecer" o nobre e generoso ato de Sua Excelência. No palácio, fomos sendo apresentados, um a um. Todos os nomes nele despertavam alguma recordação pessoal: Fulano, filho do Almirante X, "meus parabens, jovem Secretário, tua promoção foi muito merecida"; Sicrano, "ah! teu Pai é grande amigo meu, lá de Pelotas, como vai ele? Recuperou-se de sua enfermidade?"; Beltraninha, "o Pai de Você não é aquele juiz no Amazonas, não é? Sei quem ele é… Parabens, minha filha. Faça uma bela carreira...". E assim por diante, Getúlio continuou, dezenove Segundos e Primeiros Secretários, todos encantados. Mas quando chegou minha vez, o munificente Grande Irmão empacou: "Meira Penna? Meira Penna?". O nome evidentemente não lhe despertava qualquer tipo de conexão de política, compadrio ou amizade. Passou adiante, sem dizer outra palavra.

De fato, meu Pai havia sido amigo de quase todos os Presidentes da República Velha, frequentara o Palácio do Catete como fazia a alta sociedade carioca daquela época. Mas a conexão se rompera com a Revolução de 30. Minha presença entre os rebentos da ilustre aristocracia patrimonialista federal (os "Príncipes da República" como se vangloriavam os vaidosos) era meramente circunstancial. Eu fizera concurso e nele fora aprovado, sem necessidade de qualquer pistolão. Não precisava enquadrar e suspender na parede o Decreto assinado por Sua Excelência. Estava completamente fora da vasta e complexa tessitura de favores e obrigações clientelistas que constituiam a infra-estrutura do Poder, de estilo patrimonialista, sobre o qual se sustentava o homem predestinado no qual "o Brasil deposita sua fé e esperança" (para usar as expressões do DIP). Pertencia a uma nova figura abstrata que principiava a surgir. Era a do "profissional" independente e futuro "tecnocrata", recrutado por concurso e destinado a preparar a emergência do país como democracia liberal nas décadas futuras.

Fui aos poucos forçado a admitir que, não só minhas simpatias se viravam cada vez mais para o lado dos liberais da futura UDN mas que, talvez sem exatamente ter consciência do que fazia, Getúlio Vargas teve pelo menos um mérito incontestável: preservou-nos de atropelos bem mais graves, caso houvesse permitido o livre crescimento no Brasil dos dois irmãos inimigos, das duas ideologias complementares de "esquerda" e "direita", cujo confronto nos poderia haver conduzido a trágicas aventuras durante a guerra mundial que, a passos largos, se aproximava do outro lado do Atlântico. Dos males, o menor. Antes um caudilho um tanto borocoxó e necessariamente mortal, com seu charuto e barriguinha de coronel dos Pampas, bem alimentado, do que um déspota sanguinário e eficiente, do tipo de um Lênine, um Stáline, um Hitler, um Mao, Pol Pot, Kim Ilsung ou Fidel.

Outras figuras "carismáticas", que ulteriormente se manifestaram em nosso cenário político, também falharam. Carlos Lacerda por exemplo. Homem de admirável encanto e inteligência - com quem tive algum contacto quando apareceu em Nova York, auto-exilado em 1955, e depois em seu sítio de Petrópolis nos anos 60 - Carlos Lacerda sempre me deu a impressão de ser excessivamente impulsivo, incoerente e ambicioso para merecer a suprema liderança que tão obstinadamente perseguiu. Foi finalmente tragado pelo próprio regime militar que tanto contribuira para estimular - e cuja teoria justificadora ouvi, com meus próprios ouvidos, desenvolver num seminário na Universidade de Columbia, Nova York, perante um auditório assombrado e escandalizado, composto principalmente de exilados e perseguidos de outras ditaduras de generais latinos. Lacerda pretendera - imaginem só! - que os militares brasileiros seriam os únicos capazes de impor a democracia no Brasil, porque só o Exército era o partido da classe média. Em 1967/69, a questão foi posta à prova. A hipótese falhou...

Na análise que empreendi da evolução paralela de minha atitude e posicionamentos no terreno da política interna brasileira, face à situação internacional, confesso que custei a me dar conta que estava enfrentando uma problemática bem mais complexa do que inicialmente avaliara. Para combater um totalitarismo, eu havia originariamente simpatizado com outro movimento, de ideologia igualmente autoritária e estatizante. Tinha que repensar toda a questão e repelir as simplificações apressadas. Talvez fora essa necessidade o que me conduziu ao interesse pela filosofia política, enquanto as experiências subjetivas me inspiravam algo como o clima do "existencialismo" - uma dicotomia permanente na atitude ora extravertida, ora introvertida.

Nosso século é, essencialmente, um século político. A política tudo invadiu, tudo orientou, tudo contaminou, sobretudo num sentido de mentira e propaganda, violência brutal e confrontos de opinião. Leviathan e Behemoth de mãos dadas foram os Mestres da Mentira que, como intuiu Kafka, se tornou a Ordem universal. A ideologia configurou a religião-ersatz ou pseudo-religião civil de uma época de imanentização da ética e coletivização igualitarista, ao nível da mais baixa vulgaridade. O parricídio simbólico fixou a obsessão da idade. Não é só que "Deus morreu e fomos nós que o matamos", como propunha Nietzsche. O fenômeno dominante da psique coletiva consistiu em destruir a imagem simbólica da ordem patriarcal e, como resultado, tivemos o movimento revolucionário em seus aspectos mais grosseiros, com o surgimento de um Grande Irmão, mais cruel e detestável do que jamais se revelara o Patriarca de antanho. Mesmo no Ocidente democrático, a rebelião contra a antiga Ordem hierárquica, implícita na postura liberal, uma atitude em última análise positiva, veio de cambulhada com componentes anárquicos e niilistas, gerados pelo complexo homicida ambivalente (o de Édipo...), bem mais salientes do que a face construtiva da ética da responsabilidade individual, exigida pela conjuntura

Depois da Idade das Guerras e das Revoluções, estamos entrando na Idade do Crime. La Rebelión de las masas acarretou, eminentemente, uma submissão servil e masoquista aos grandes tiranos criminosos. A ideologia nacional-socialista contem em seu bojo a ignóbil aceitação do chicote do Grande Irmão. Na realidade, dominou o Grande Feitor, capataz, cacique ou feiticeiro representativo da imagem-ideal do ídolo tribal, o King Kong fantasmagórico com que, em seu "Totem e Tabu", pretendeu Freud explicar o Complexo de que, coletivamente, sofreria a Humanidade. Como conciliar a liberdade almejada com o desejo de ordem e segurança que, na aparência, só o coletivismo garante através de um Estado forte? "Direitos naturais", "direitos do homem", "direitos adquiridos", certo. Mas como assegurá-los sem os riscos da arbitrariedade estatal? Foi o tema que procurei cobrir, talvez sem grande sucesso, na obra "O Dinossauro", publicada em 1988. Impecavelmente apresentado pela editora T.A. Queiroz, porém mal distribuído e privado de divulgação nos media, a obra foi um triste fracasso editorial. Uma das teses originais que aí defendi é a do contraste entre os dois desejos ou impulsos básicos do homem, o de segurança e o de liberdade. O paradoxo salientado é que a vontade de segurança a fim de evitar a guerra de todos contra todos, fundamentando o Estado, se coloca na origem do Contrato Social de Hobbes, ao passo que a liberdade figura no de Rousseau. Ora, o Leviathan do primeiro conduzirá ao Liberalismo moderno enquanto a Rousseau é corretamente atribuída a gestação, pela influência que exerceu sobre os Jacobinos franceses, do totalitarismo de nosso século. O livro pretendeu constituir uma análise do monstruoso Estado moderno com sua religião civil, seu "patrimonialismo selvagem", sua burocracia corrupta, sua Nomenklatura e a "Nova Classe" de intelectuais de esquerda que se transformavam em "intelectuários" (o termo magnífico inventado por Gilberto Freyre para designar o intelectual que deseja tornar-se funcionário público, ou o funcionário que pretende ser promovido a intelectual), todos sedentos de poder e bem remuneradas mordomias.

Volto aos pontos relevantes deste currículo, retornado ao fio da meada autobiográfica.

Na Carreira

Foi ao final do ginasial no Liceu Francês, preparando-me para o vestibular da Faculdade de Direito por falta de outra opção, que surgiu a proposta, espontaneamente apresentada por minha irmã, de ingressar na carreira diplomática através de concurso. O carioca tem vocação automática para o serviço público. Faz-se um esforço inicial para receber o decreto de nomeação (na época eram ainda assinados pelo próprio Presidente da República!) e, daí por diante, tudo correrá sem tropeços, com os vencimentos religiosamente pagos ao final do mês: há mais de sessenta anos que isso me favorece, sem interrupção. O contracheque é a única instituição estável na notória instabilidade institucional do país... E, no Itamaraty, a não ser que se morra antes, cause um desfalque demasiadamente escandaloso ou seja notoriamente deficiente mental, grandes são as probabilidade de atingir o último degrau, o de Embaixador. Por isso, há hoje mais embaixadores do que Secretários em princípio de carreira...

A sugestão da diplomacia, dada por minha irmã, abria a oportunidade de viajar pelo mundo, oferecendo suficiente lazer para leitura e estudo. Depois de três anos de preparo para o concurso de 37, com estudo intensivo que me afastava de maior envolvimento político, venci a prova com apenas vinte anos de idade, numa turma de dez entre 105 candidatos, dos quais cinco se me tornaram amigos de toda a vida: Manoel Pio Correa, Carlos Silvestre (Bubu) de Ouro Preto, Jaime Azevedo Rodrigues, Arnaldo Vasconcellos, Luiz de Souza Bandeira e Manoel Antonio de Pimentel Brandão. Este último era o mais antigo de todos pois o conheci em 1927, em Paris, filho que era do então Conselheiro de nossa Embaixada em França. Posteriormente, foi Mário de Pimentel Brandão Chanceler do Getúlio, no período mesmo de nosso ingresso na "Casa".

Fui nomeado para o serviço diplomático em fevereiro de 1938, e a ele fielmente servi durante 43 anos, através dos vários escalões da carreira. Na véspera da nomeação, incidentalmente, em clamorosa demonstração do nepotismo e caráter patrimonialista do regime vigente, dez outros cavalheiros, escolhidos por "concurso de circunstâncias", entraram "pela janela", atrasando logo de início nossas expectativas de futuras promoções. Sem às vezes poupar-lhe críticas, que foram mal interpretadas por outros colegas, digamos, mais "disciplinados" ou submissos; e sem chegar ao cinismo daquele de quem ouvi, certa vez, o franco desejo de "viver longe do Brasil, mas à custa dele..." - confesso que uma de minhas grandes frustrações na profissão que Carlinhos de Ouro Preto, um dos chefes mais brilhantes sob os quais servi, comparava a uma prostituição de luxo - sempre foi a de alimentar sérias e recalcadas dúvidas quanto à utilidade e valor moral da mesma. Das três funções diplomáticas principais, Representação, Observação, Negociação, foi a segunda que soberbamente me condicionou para o suntuoso, porém arriscado, turismo cultural. Mas a Representação é o que preeminentemente justifica a nossa diplomacia - e minha Persona sempre foi algo embrionária, insegura e mal desenvolvida…

Entre 1938 e 1940, minha aprendizagem levou-me à Divisão de Atos Internacionais, uma sinecura que acabou sendo chata, e à Divisão Política. Ali servi em dois momentos particularmente interessantes de nossa história diplomática. A primeira, 1938/39, foi a Campanha de Nacionalização levada a cabo no Sul (Santa Catarina e RGS) para a redução das "colonias" alemãs onde a língua, a cultura e a reivindicação de nacionalidade criava um perigoso núcleo para inserção do imperialismo nazista. Não obstante o interesse germânico em criar uma intensificação do comércio bilateral que, em 1938, tornou a Alemanha o principal fornecedor de nosso país, a arrogância e falta de habilidade do embaixador Ritter provocaram quase um rompimento de relações entre o Rio e Berlim.

Em fins de 1940 parti para o primeiro posto. Acompanhado de meu pai e irmã, Maria Cecília, que desejavam fazer a volta ao mundo, embarcamos num navio japonês, o Brasil Maru, que nos carregou ao Japão. Era o inverno, e o Império do Sol Nascente em Tóquio, Nara e Kyoto, envolto em brumas, deixou-me uma impressão de mistério de que com dificuldade custou desfazer-me.

Outro "Maru" nos levou à Índia, via Xanghai, Hong Kong, Singapura e Bombaim. Senti em cheio o impacto do Call of the East que, outrora, seduzia a juventude aventureira do Ocidente. Calcutá era meu destino. Fora para ali designado com a missão, a primeira em minha folha de serviço, de administrar um Consulado de carreira normalmente atribuído a um Primeiro Secretário ou Conselheiro. Minha rota ia topar, todavia, com outra pedra imprevista. A Moira caprichosa a colocara no caminho - para adicionar algumas outras dúvidas e perplexidades no contencioso com uma realidade que, erroneamente, eu calculara limpa, racional e facilmente manipulável. O governo inglês recusou-me a concessão do Exequatur, formalidade exigida para que eu pudesse exercer as funções consulares previstas: a de carimbar vistos em passaportes e firmar despachos de juta exportada para nossas sacas de café. A iniciativa antipática teria sido inspirada por um Secretário da Embaixada da Grã-Bretanha no Rio, David Scott-Fox, de quem por nova ironia do destino me iria tornar amigo, ele e sua mulher francesa, a bela Brigitte, muitos anos depois, em Ankara e Nova York. As informações desabonadoras a respeito deste vosso humilde servidor teriam procedido de informantes brasileiros de origem inglesa, e os motivos teriam sido minhas simpatias germanófilas, agravadas no momento pela áspera desconfiança do governo de Churchill com as ambiguidades do Presidente Vargas e as alegadas demonstrações de personalidades brasileiras (Góis Monteiro, Felinto Müller, o próprio Gaspar Dutra?), supostamente favoráveis a um eventual conluio com o Eixo. Não nos esqueçamos que a Grã-Bretanha enfrentava o momento mais terrível da Guerra, a blitz nazista, e derrotas na Grécia, Creta e Líbia. Churchill não dava quartel!

A permanência na Índia foi, por consequinte, curta. Viajei rapidamente por esse sub-continente extraordinário, tão notável por seus gloriosos monumentos de arte e história, quanto pelo espetáculo deprimente da superstição e miséria humana. A arrogância impérial inglesa era flagrante. Não obstante, poucos anos mais tarde já me havia convencido do fato de oferecer a Inglaterra o grande exemplo e modelo político para o mundo, cabendo um lugar especial a Londres como a cidade mais civilizada da terra. Acontece igualmente que alguns de meus mais fieis amigos foram diplomatas ingleses, Milo Talbot, Kenneth James, Steve Lockart e sua mulher, Ângela, John Hickman e Bill Harding, este último embaixador britânico em Brasília nos primeiros anos 80, incluindo o episódio da Guerra das Falklands.

A cultura e literatura inglesas também acabaram superando, em meu afeto, a francesa que tão poderosa havia sido na infância e adolescência.

O Itamaraty transferiu-me para o Consulado Geral em Xanghai, onde cheguei em maio de 1941. Como Vice-Cônsul, seria o único auxiliar do brasileiríssimo Cônsul Geral James Philip Mee - a repartição funcionando numa salinha de seu próprio apartamento. No grande porto chinês, uma das metrópoles cosmopolitas mais excitantes e curiosas do planeta, permaneci seis meses de movimentada aventura, quando fomos colhidos pelo ataque japonês a Pearl Harbor. Os nipônicos, cujas tropas cercavam o chamado Settlement - a Concessão Internacional de que era o Brasil, curiosamente, um dos garantes e administradores teóricos - ocuparam sem combate toda a cidade na noite de 7/8 dezembro 1941. Exatamente no mesmo instante estavam bombardeando a esquadra americana do Pacífico. No próprio porto de Xanghai, afundaram depois de vinte minutos de bombardeio, uma canhoneira inglesa. O ronco dos canhões de um velho encouraçado, o Idzumô, às três da madrugada, me acordou para a realidade do que antecipara, sem me dar conta das consequências, a Guerra do Pacífico.

Em fevereiro do ano seguinte, tendo se reunido no Rio de Janeiro uma Conferência de Ministros das Relações Exteriores de todo o continente americano, foi decidido o rompimento de relações com o Eixo. O Brasil acompanhou imediatamente a decisão, sob a batuta do Oswaldo Aranha, notório partidário dos Aliados que Getúlio, oportuna e convenientemente, colocara na chefia do Itamaraty. As conseqüências em Xanghai não se fizeram tardar. As autoridades japonesas nos visitaram no mês de março, aliás muito cavalheirescas, sendo encerradas as atividades do Consulado Geral e lacrada a sede. Fomos transferidos para um hotel na própria "Concessão Francesa" (obediente ao governo de Vichy), onde residíamos. Ali permanecemos em regime de semi-internamento até junho daquele mesmo ano de 42. Fomos então embarcados num navio italiano, o "Conte Verde", e, via Oceano Índico, "trocados" com os diplomatas japoneses que vinham da América do Norte e Sul em Lourenço Marques, hoje Maputo, no Moçambique, então colonia portuguesa. De Lourenço Marques, fomos recambiados ao Rio pelo navio sueco Gripsholm - uma viagem sem novidades em oceanos infestados de submarinos de diversas bandeiras, todos respeitosos - felizmente! - da grande cruz branca de neutralidade que o barco ostentava.

Curta mas imensamente gratificante foi a experiência desses dois primeiros postos - não obstante marcada por graves crises pessoais, altamente emocionais, de teor romântico, mas cujo relato não cabe neste contexto. No inverno de 42 assistiu-se à grande calamidade da fome em Xanghai. Constava que, numa só noite, quatrocentos mendigos haviam morrido de fome e frio pelas ruas da grande cidade, recolhidos na manhã seguinte. Eu mesmo tropecei num cadáver coberto de neve e assisti à agonia de outro faminto, a cujo lado aguardava um colega para lhe arrancar as roupas e sapatos furados. A fome em Xanghai não teve a gravidade do Rapto de Nanking de princípios de 1938 - o episódio singular que é considerado o mais mortífero de toda IIª Guerra Mundial, quando, com o intuito de obrigar a China a render-se pelo uso do terror indiscriminado, as tropas japonesas que acabavam de ocupar a capítal de Chiang Kai-chek foram desencadeadas em fúria homicida e massacraram entre duzentos a trezentos mil, da população civil da cidade. O comportamento do ocupante nipônico em Xanghai serviu, no entanto, para incompatibilizar-me definitivamente com a imagem utópica e romântica que desde a adolescência havia acariciado do Japão. O exótico Império do Sol Nascente, com seus samurais entre as perfeitas paisagens de verdura, castelos com telhados arrebitados e cerejeiras em flor, geishas extraordinárias de encanto e ternura, dramas heróicos de bravos bushi que Kurosawa, depois da guerra, iria personificar, nobres cegamente obedientes à fidelidade devida ao Xôgun - tudo isso se desmanchou diante da realidade de brutalidade gratuita de que havia sido testemunho.

Um curioso sentimento também permaneceu, algo traumático, desse episódio. Fizera amizade com alguns oficiais do Regimento de Marines que guarnecia o Settlement internacional. O Regimento partira para as Filipinas uma semana antes de Pearl Harbor e, segundo soube mais tarde, combatera na defesa de Bataan e Corregidor, detendo por seis meses o avanço nipônico no arquipélago. Dos oficiais que conheci, poucos sobreviveram com vida ao combate e à "marcha da morte" dos prisioneiros em Bataan, após a rendição. A meditação existencial, algo melancólica, sobre a sorte que o destino nos reserva se torna aguda quando me vejo, numa foto do evento, entre os convivas de um rega-bofe, oficiais americanos, russos brancos exilados na China, moçoilas jovens e sedutoras em profusão de nacionalidades - cada um dos quais a guerra de modo diverso afetou, às vezes tragicamente.

Dados meu envolvimento com o Integralismo, entranhado anti-comunismo e deplorável ignorância do verdadeiro sentido da ideologia nazista, eu havia antecipdoi, no princípio da Guerra, que a "necessidade" histórica iria conduzir o conflito ao triunfo da Alemanha, maneira prática de eliminar o "perigo vermelho". Muitos "conservadores" do período, entre os mais sábios, pensavam do mesmo modo, poucos se dando conta da psicopatologia coletiva que Hitler representava. Eu havia lido Spengler em 1934. Um forte sentimento germanófilo dominava amigos da família e certos setores do governo do Getúlio, o que se manifestaria pelas palavras do próprio ditador no famoso discurso de junho de 1940, a bordo do encouraçado "Minas Gerais". Usando de sua célebre tática esperta de gangorra ideológica, Getúlio estava abrindo as portas a uma eventual colaboração com o Eixo - posição da qual rapida e sabiamente recuou em fins de 41, depois de Pearl Harbor! O rompimento com o Eixo e eventual envio da Força Expedicionária à Itália foram as consequências. No próprio Itamaraty, em sua grande maioria simpático à causa democrática aliada, só alguns grupos individuais diminutos favoreciam o Eixo. Quando um submarino nazista torpedeou um encouraçado de Sua Majestade britânica em Scapa Flow, em fins de 1939, meu amigo, colega e companheiro (de concurso e do antigo Departamento de Estudantes do Integralismo), Jaime de Azevedo Rodrigues, percorreu os corredores da Casa, congratulando-se pelo ocorrido aos gritos de Sursum corda! Uma das figuras mais simpáticas, brilhantes e sedutoras que conheci na carreira, o Jaime transmudou-se desgraçadamente para o lado errado depois da guerra. Já Embaixador, terminou melancolicamente a carreira em 1964. Em abril daquele ano, seguindo a nova versão do nacionalismo terceiro-mundista que se alimentava tenazmente de anti-americanismo, ele efetuou um verdadeiro sacrificium intellectus ao se alinhar com a Esquerda. E foi cassado após insistir contra todos os conselhos amigos, inclusive do Chanceler Vasco Leitão da Cunha, numa declaração ostensiva a favor do governo Goulart que acabava de ser derrubado.

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Compilado em 28/10/2001
Fonte: Vários sites na Internet

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