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Terça-feira, 4 de abril de 2000
Sobre o ressentimento
Foi Frederico Nietzsche o grande descobridor do papel do ressentimento na mentalidade do homem moderno. A ideologia, de certa forma, é gerada pelo ressentimento. Tanto o nacionalismo quanto o socialismo em suas diversas formas prosperam no ressentimento. Criam uma mentalidade maniqueísta de onde surgem duas figuras antitéticas, a do salvador, defensor do bem e da verdade, e a do inimigo, defensor do mal, da mentira, agressor e, eventualmente, bode expiatório de todos nossos males. É em Assim Falou Zarathustra que Nietzsche concebeu poeticamente a tese no capítulo "As Tarântulas" (II,7). Max Scheler foi quem, na trilha de Nietzsche, melhor desenvolveu a análise desse perverso e entranhado sentimento, tão responsável pelos desastres políticos da atualidade. A influência de Nietzsche exerceu-se de modo pujante sobre o jovem Jung, quando elaborava sua própria teoria de psicologia analítica. A idéia do arquétipo da sombra muito deve a esse extraordinário influxo filosófico e insistiu o psicólogo sobre a necessidade de o indivíduo (e das coletividades) investigar sua própria sombra, no caminho do aperfeiçoamento da alma e conscientização de seus complexos e neuroses. Mas não esconde Jung quão penoso é o caminho da introversão curativa.
Em meu recente Em Berço Esplêndido (Topbooks Editora, Rio, 1999), dediquei um largo espaço (IVª parte) à tentativa de levantar os aspectos mais tenebrosos da auto-análise. Analisei a figura do Duplo (o alter ego positivo e negativo) que nos acompanha por dentro, às vezes sob a forma de um Faceto Macunaímico; outras vezes como um Íncubo da Intelectuária que salienta sua presença dominante em nossa Intelligentsia. Tratei diretamente dos Bodes Expiatórios e Projeção de Sombra, exemplificando concretamente o funcionamento do demônio no Othello de Shakespeare. Neste caso, o papel do sombrio personagem é desempenhado por Iago, provocando a tragédia. Minha obra possui, aliás, o propósito consciente de contribuir para o desenvolvimento pedagógico da racionalidade em nossa cultura, através do reconhecimento de nossa vulnerabilidade ao aparecimento de bodes expiatórios e vãs esperanças de cura através de figuras carismáticas e ideologias que nos escravizam a seus chavões, utopias, falsos esquemas conspiratoriais e os recursos sociopolíticos do democratismo demagógico. Em Berço Esplêndido possui certamente o objetivo político específico de remediar nossas mazelas pela superação racional de mitos, ídolos, mentiras propagandísticas e falsos bodes expiatórios.
É assim com grata surpresa que descubro, após leitura de uma resenha no Caderno de Cultura do Estado de S.Paulo (domingo, 26/3), que uma outra obra, Editora Senac, de igual inspiração em Jung, acaba de ser publicada por Roberto Gambini e Lucy Dias sob o título Outros Quinhentos - Uma Conversa Sobre a Alma Brasileira. Conheci Gambini em Zurique, quando eu ali pronunciava conferências no Instituto C.G.Jung, e ele terminava seu curso na linha do grande pensador suíço, tornando-se posteriormente analista e sociólogo. Seu propósito parece ser idêntico ao meu: fazer uma revisão psicológica da História do Brasil. Talvez a diferença entre nossas posturas é que a dele mais parece de identificação como pacientes, e a minha de analista mais frio. Ainda não li o livro. Deduzo da resenha, porém, seja o cerne da interpretação dos autores a idéia que o Brasil é o resultado do contato do branco colonizador de mente católica cheia de sombras, com a alma virgem do índio e do negro, a qual o português não soube compreender, nem assimilar. O brasileiro, na versão assaz tendenciosa de Darci Ribeiro, seria filho da índia inocente e do europeu que a estuprou. Num esquema de Complexo de Édipo freudiano, somos todos filhos bastardos. O estigma da ilegitimidade e da ausência de um pai, cuja autoridade era fraudulenta, teria dado como resultado o que somos: Macunaímas sem nenhum caráter... Como salientei em minha própria interpretação, a expressão mais saliente da sombra reprimida reside na estrutura social e econômica. "O brasileiro transforma ouro em merda!" Quero ver o resto: a tese vale para debate...
J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br
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