Pensadores Brasileiros       

Artigos de José Osvaldo de Meira Penna

Período de 21/1/1998 a 15/10/2001
Total: 83 artigos
 

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Segunda-feira, 25 de junho de 2001 

Tendências da atualidade brasileira 

A mentalidade primária, vigente entre crianças, primitivos e intelectuais contaminada pela aids ideológica é maniqueísta. Tudo é branco ou preto, bom ou mau, justo ou injusto. Na dicotomia idiota que herdamos dos jacobinos de 1793, o maniqueísmo é o da esquerda x direita. A propaganda totalitária, a dos nazistas como a dos comunistas, sempre se valeu dessa divisão simplória que facilita o julgamento daqueles cujo raciocínio adoeceu ou ainda não amadureceu. Na política partidária, o dualismo se concretiza de modo semelhante: governo x oposição. A velha sabedoria política britânica, no entanto, dividiu as Casas do Parlamento em duas bancadas que se defrontam para o debate: o partido no poder senta-se de um lado, a oposição, do outro. 

Com forte dose de bom humor, o debate oral é muito mais tranqüilo e disciplinado do que em nosso Congresso onde as ilustres Excelências, quando presentes (o que não é freqüente), se concentram de pé diante da mesa, para um bate-boca bagunçado que pode terminar em gritos e safanões. Nos Estados Unidos, 200 anos de experiência constitucional conduziram à criação de dois partidos de conteúdo ideológico bastante vago que, por força mesmo do sistema, tendem para o centro. Republicanos e democratas refugam os excessos e seus candidatos bem-sucedidos sabem conciliar as divergências. O que é, aliás, a democracia senão a conciliação de interesses necessariamente opostos, segundo regras legais bem definidas e tolerantes de opiniões contenciosas? 

No Brasil atual, não descubro o esquema acima apresentado. Diria antes, machadianamente, que "a confusão é geral"... Os interesses de extrema complexidade e repletos de contradições constelam-se em tendências ideológicas de expressão político-partidária que podem ser classificadas em três categorias imbricadas. No quadro da opinião pública, observamos um triângulo, não uma polaridade. A primeira seria a da chamada "Esquerda". De uma facção lunática que imagina o Lula, coadjuvado por Fidel, Chávez e Saddam Hussein, como o carismático líder mundial de uma "terceira" internacional troglodita, destinada a ressuscitar o estatismo marxista após a queda da URSS, até o cor-de-rosismo ecológico de estilo gabeira e a pedagogia sexológica da bela prefeita de S.Paulo - há muitos matizes entre esses destruidores da sociedade denunciados no editorial do JT da quinta-feira, 21, "Quem precisa de inimigos?" Aliás, a lista só carece dos membros da CNBT, a Conferência Nacional dos Bispos Petistas, liderados por um jesuíta francês. 

O segundo núcleo ideológico arregimenta-se em torno do nacionalismo, estendendo-se desde os militares nostálgicos do AI-5 ou obcecados com a "cobiça estrangeira" sobre a Amazônia (cobiça bem mais obscena me parece ser a dos governadores locais...) até os burgueses ultraconservadores e, last-but-not-least, os empresários monopolistas, temerosos da concorrência estrangeira e sedentos das tetas do Tesouro nacional. Me dei conta disso ao assistir a uma série de conferências antiglobalistas num cenáculo acima de qualquer suspeita - o do Conselho Técnico da CNC (de que sou membro), que edita a revista Carta Mensal. É a estes, por sinal, que se refere Olavo de Carvalho no artigo da mesma data, Os ricos no paraíso. O laço comum entre os "patriotas" é o ódio entranhado à globalização e a seu pólo paradigmático, os Estados Unidos, invariável bode expiatório de nossas mazelas. Ao tema pretendo dedicar meu próximo suelto. O outro feitiço que, estranhamente, vincula a esquerda e a direita é o que a leitora Carmela Tassi Chaves (no mesmo JT do dia 21) apropriadamente qualifica o PTFP (Partido dos Trabalhadores do Funcionalismo Público federal, estadual e municipal). Não desejam perder a carniça... 

A terceira tendência, finalmente, é aquela a que pertenço, o liberalismo globalizante. Embora não seja "historicista', estou firmemente convicto que a liberdade é o caminho do futuro e, por isso mesmo, não sou pessimista. O pior que nos poderá acontecer, se os dois adeptos do autoritarismo vencerem as eleições de 2002, é atrasar nosso desenvolvimento por mais 20 ou 30 anos. 

Mas o Brasil continuará, como continuam Cuba, Coréia do Norte, Congo e Afeganistão, por que não? Não é o que desejam? 

J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br

Compilado em 28/10/2001
Fonte: Vários sites na Internet

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