Pensadores Brasileiros       

Artigos de José Osvaldo de Meira Penna

Período de 21/1/1998 a 15/10/2001
Total: 83 artigos
 

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TEORIA E PRAXIS

Jornal da Tarde, 24 de janeiro 2000

Revista LEADER, 15 de maio 2000 (Porto Alegre)

J.O. de Meira Penna

Contava-se em Varsóvia, quando la servi nos anos 80, a anedota do visitante que, estranhando a presença de tantas belas igrejas barrocas na cidade, perguntou a um polonês: "Vocês são mesmo tão católicos?". "Somos", respondeu-lhe o homem, "mas não praticamos". Logo adiante, o turista se deparou, num imenso edifício moderno, com a bandeira vermelha da sede do Partido Comunista. "Vocês então são comunistas?". "Certamente não", foi a resposta, "mas praticamos". Estamos hoje, no Ocidente, diante de uma situação semelhante: ninguém é comunista, mas muita gente pratica a ideologia. Num artigo na National Review, Jean-François Revel observa com pertinência que, nas nações da Europa oriental, a ideologia pode estar morta mas parece quase impossível erradicar as práticas dela derivadas. Nas nações que nunca foram comunistas, ao contrário, é a própria ideologia que conquistou uma nova sobrevivência. "Característicos da última década é o imenso esforço e inacreditável engenho demonstrados pela Esquerda internacional, no sentido de ignorarem a lição adequada do fracasso do comunismo", escreve o conhecido jornalista francês que oferece exemplos de acontecimentos recentes para ilustrar o argumento. Nas badernas que acompanharam a reunião da WTO em Seattle, as várias NGOs, sindicatos e sociedades semi-religiosas responsáveis se baseavam num anti-capitalismo primário, de natureza obviamente marxista. Outros eventos reforçam a alegação. As hipócritas manifestações de afronta e protesto contra a decisão de não extraditar o general Pinochet contrastam com o fato de que os homens que ordenaram o massacre de estudantes na Praça da Paz Celestial, o tirano cubano e dúzias de políticos que cometeram violências e os mais escabrosos atentados contra os Direitos Humanos andam por aí e são recebidos com todas as honras pelos chefes de Estado democráticos (sem esquecer o brasileiro), sem que nada lhes aconteça. E qual o estadista ocidental ainda vivo que, na luta contra o comunismo e a ditadura (Vietnam, Nicarágua, Iraque, Bósnia, Kôssovo) não tenha sido responsável por um número de vítimas muito maior do que as da repressão no Chile? E o que faziam em 1972, no Chile, os tais espanhóis que serviram de motivo ao juiz marxista Baltasar Giron, para sua estranha iniciativa? O próprio Mr. Blair, cujo governo ilegalmente detem um ex-Chefe de Estado provido de passaporte diplomático e antigo aliado da Grã-Bretanha, mandou bombardear mais comunistas sérvios do que os terroristas atingidos por Pinochet.

O fenômeno denunciado por Revel é, realmente, de âmbito universal. Nos Estados Unidos, Reagan, o presidente que derrubou o "império maligno", terminou a Guerra Fria e desencadeou o mais longo período de crescimento econômico na história americana é menosprezado e ridicularizado pelos intelectuais esquerdistas. A revista conservadora Policy Review publica uma estatística significativa do número relativo de professores de história, nas Universidades americanas, pertencentes à esquerda do Partido Democrático, comparado ao de Republicanos. É quase dez para um. A grande maioria desses catedráticos atribui a Gorbachov e não a Reagan o mérito pelo fim da Guerra Fria. A opinião maciça dos meios de comunicação favorece causas tidas como "liberais" (de esquerda), muito embora a maioria do eleitorado vote no Partido adversário. Eles criticam com argumentos humanitários o embargo que prejudica Cuba e o Iraque, embora fossem todos entusiastas do embargo à África do Sul ao tempo do apartheid. O que se descobre, em suma, é extrema parcialidade na distribuição dos elogios e das críticas, precisamente por parte daqueles que mais argumentam com a "Justiça Social" e choramingam em defesa dos Direitos Humanos. Dois Pesos e duas Medidas. Palmas para Chávez, apupos para Fujimori. Como acentua Revel, o que revela a Intelligentsia ocidental é um ódio entranhado à globalização e à sociedade aberta. Aquilo que a entusiasma é a tentativa de reviver os aspectos mais rebarbativos da Contra-Cultura dos anos 60/70. Por mais estranho que pareça, a Esquerda comporta-se como triunfante na Teoria no momento de seu colapso na Praxis, diante do sucesso do capitalismo.




Compilado em 28/10/2001
Fonte: Vários sites na Internet

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