Pensadores Brasileiros       

Artigos e Entrevistas de Miguel Reale

Período de 25/2/1995 a 15/9/2001
Total: 47 artigos
 

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Gilberto Freyre, um intérprete do Brasil 

O Caderno de Sábado publica, com exclusividade, o texto de uma conferência do jurista e filósofo Miguel Reale sobre o sociólogo pernambucano, autor de Gasa-Grande & Senzala, cujo centenário de nascimento está sendo comemorado este ano 
Sábado, 21 de outubro de 2000 

Em primeiro lugar, desejo agradecer as palavras generosas do acadêmico presidente da Academia Paulista de Letras, Israel Dias Novaes, que tão gentilmente me convidou para proferir uma conferência comemorativa do centenário do nascimento de Gilberto Freyre. Aquiesci, incontinenti, a esse convite, não só pela figura gigantesca de Gilberto Freyre, mas também pela amizade fraternal que me ligava a ele, lembrando-me sempre de um convívio de quase 15 anos no Conselho Federal de Cultura, quando pude apreciar pessoalmente a vivacidade de sua inteligência e a dedicação perene às causas da cultura. 

Não dei título, no momento, à minha palestra, mas após a releitura, necessariamente rápida de suas principais obras, já posso adiantar que falarei sobre Gilberto Freyre - intérprete do Brasil. Na realidade, não há, na cultura brasileira, nenhum escritor que tenha sabido interpretar como ele, de maneira tão profunda e original, a nossa sociedade, procurando penetrar no que há nela de mais característico, para captar o seu sentido histórico, o seu destino. 

Há pessoas que nascem como que para a realização de uma obra inovadora, enquanto que, às vezes, uma obra fundamental surge inesperadamente, no evolver de uma longa existência. Há, em suma, escritores que, desde o começo, parecem destinados a escrever certos livros e a dizer certas coisas. 

Gilberto Freyre inclui-se entre os predestinados a realizar uma missão histórica, conatural a seu ser, inerente à sua personalidade. Na realidade, ele, nascido em Pernambuco, não teve educação igual à de seus coetâneos, pois fez seus primeiros estudos guiado por seu pai, grande magistrado e grande educador, e, em seguida, entrou para um colégio americano, tornando-se o inglês a sua segunda língua. Ao terminar o curso médio, seu pai fez questão que ele fosse aos Estados Unidos da América, onde iria encontrar o ambiente propício à aquisição dos pressupostos metodológicos essenciais ao estudo da sociedade escravocrata brasileira, do patriarcado rural e de sua passagem para a vida urbana e republicana. 

Nos Estados Unidos, com 18 anos, ingressou na Universidade de Baylor, especializando-se em Ciências Políticas e Sociais. A seguir, tornou-se pós-graduado pela Columbia University, onde teve contato não só com grandes sociólogos, mas também com mestres de poesia, e sobretudo com Amy Lowell, expoente da chamada poesia imagética. A influência dessa poesia, avessa às velhas fórmulas retóricas, iria perpetuar-se em seus escritos como elemento essencial da sua capacidade expressional. 

Na Universidade de Columbia, ele escreveu uma tese sobre a sociedade brasileira e a escravidão, trabalho tão notável que seu orientador o aconselhou a transformá-lo em livro. Essa a origem de Casa-Grande & Senzala. 

Tudo estava, repito, como que predeterminado na vida de Gilberto Freyre. 

De volta à pátria, em 1923, ele se deparou com um Brasil ansioso de coisas novas, já revelado pela Semana de Arte Moderna de São Paulo, no ano anterior. Espírito sempre em busca de coisas novas, Gilberto logo se integrou nesse movimento literário, mas o fez, como gostava de assinalar, liberto de influências estrangeiras, como a de Marinetti, por exemplo, buscando nas circunstâncias mesmas do Brasil a razão de seu pensar. Daí o surgimento da idéia do regionalismo, objeto da Semana Regionalista e Tradicionalista por ele movida, e que estaria livre de qualquer "europeização", que ainda caracterizava, a seu ver, o movimento paulista crítico que, penso eu, não procede. 

De volta à Pernambuco, dedicou-se à política, e, como era também poeta, na sua visita de "descoberta do Nordeste", escreveu um poema famoso, "Bahia de todos os santos e todos os pecados". Mas não era a poesia o seu destino. 

Atraiu-o a política, e ele passou a ser um dos auxiliares diretos do governador Estácio Coimbra, quando, repentinamente, arrebentou a Revolução de 30, sobrevindo com ela o exílio, como nota logo no prefácio de Casa-Grande & Senzala. 

Mais uma vez voltava aos Estados Unidos, mas desta vez como professor visitante da Universidade de Stanfort, onde iria completar a sua visão científica, sobretudo pelo convívio com o grande sociólogo e antropólogo Franz Boas, que foi quem mais influência exerceu em seu espírito. 

Franz Boas se destacara especialmente por suas obras sobre a cultura negra e suas conseqüências no Sul dos Estados Unidos e, nesses estudos, Gilberto Freyre iria encontrar elementos múltiplos de inspiração para realizar tarefa semelhante no Brasil, mas com maior perspectiva histórica. 

Quero aqui ler palavras de Gilberto, para mostrar o entusiasmo com que ele recebia aquelas pesquisas sobre a escravidão e seus reflexos na América do Norte, convicto de seu profundo significado para a compreensão de nossa formação cultural: 

"Não creio, escreve ele no Prefácio de Casa-Grande & Senzala, que nenhum estudante russo, dos românticos do século 19, preocupou-se mais intensamente pelos destinos da Rússia do que eu pelos do Brasil na fase em que conheci Boas. Era como se tudo dependesse de mim e de minha geração; de nossa maneira de resolver questões seculares. E dos problemas brasileiros, nenhum que me inquietasse tanto como o da miscigenação." 

Uma lição que vinha de maneira direta de Joaquim Nabuco. Joaquim Nabuco dissera que a escravidão havia sido oficialmente superada, mas que, do ponto de vista social e histórico, deixava uma herança de duras repercussões em nossa formação social. Vencida a escravidão na Lei, restava vencê-la no âmago da sociedade, e foi essa a lição de Joaquim Nabuco a qual influiu poderosamente no espírito de Gilberto Freyre. 

Casa-Grande & Senzala surgiu como expressão de uma sociedade semifeudal, como realização de algo de novo na América do Sul, bem diferente daquilo que ocorria na América Espanhola, onde conviviam cultura diversas, enquanto que no Brasil se integravam, se misturavam culturas distintas, para dar lugar a uma nova unidade exótica. 

É impressionante a descrição que ele faz: "A casa-grande de engenho que o colonizador começou ainda no século 16 a levantar no Brasil - grossas paredes de taipa ou de pedra e cal, coberta de palha ou de telha vã, alpendre na frente e nos lados, telhados caídos num máximo de proteção contra o sol forte e as chuvas tropicais - não foi nenhuma reprodução das casas portuguesas, mas uma expressão nova, correspondendo ao nosso ambiente físico e a uma fase surpreendente, inesperada, do imperialismo português." 

A casa-grande foi o centro de uma sociedade semifeudal, a qual não se reduzia às relações entre o senhor e os escravos, mas que era também formada pelos lavradores de partido, os agregados, moradores de casas de taipa e de palha, "todos vassalos das casas-grandes em todo o rigor da expressão", tal como enfatiza Gilberto Freyre. 

Estou procurando ater-me, o mais possível, ao que ele escreve, não apenas para ilustrar a matéria, mas para dar exemplo de sua linguagem fluida, coloquial, num português diferente, sem nenhuma retórica, mediante o qual procura penetrar no que há de mais íntimo em nosso ser histórico. 

Nesse sentido, insiste ele em afirmar que, em torno dos senhores de engenho, se criou o tipo da civilização mais estável na América Hispânica. Esse tipo de civilização se reflete na arquitetura gorda, horizontal da casa-grande. 

Cozinhas imensas para preparo de uma alimentação formada, ao mesmo tempo, de elementos indígenas, portugueses e africanos. Como se vê, dá ele uma importância fundamental à alimentação, revelando quanto ela é importante para distinguir as diversas formas de cultura de que se ia compondo, do Norte ao Sul, a civilização brasileira. 

Para a interpretação dessa experiência histórica, Gilberto tinha uma metodologia especial, resultante do fato de não aceitar a sociologia tal como era pregada pelos mestres positivistas, ou seja, como uma ciência empírica e racional. Ele entendia que, ao contrário, a sociologia, por sua própria natureza, por ter por objeto o homem na sua versatilidade contínua, é necessariamente complexa, aberta e eclética, combinando elementos sociais, históricos e psicológicos, numa visão criadora e artística. 

É o caso, pois, de perguntar: não é ele, então, um sociólogo? Referindo-me ao seu poema sobre à Bahia, será talvez um poeta? Levando em conta o papel da antropologia em sua obra, não seria antes um antropólogo? Era ele um psicólogo? Não, meus caros amigos, Gilberto Freyre não era nada disso, porque era tudo isso ao mesmo tempo, numa visão integral, impressionante, de tal maneira que ele mesmo se perde, às vezes, em expressões - à primeira vista surpreendentes, como quando fala em antroposociologia histórica, em sociologia psicológica, em sociologia cultural, e assim por diante, combinando vários adjetivos. A bem ver, a posição de Gilberto Freyre não se compreende sem uma íntima correlação entre a pesquisa empírico-positiva e as histórico-culturais inspiradas por Dilthey, Max Weber ou Hans Freyer. Era, portanto, algo de novo na compreensão do fato humano. Ele chega mesmo a se referir à uma compreensão proustiana do fato social, na necessidade de se recorrer aos processos analíticos de Proust para penetrar na alma brasileira, tão complexa e mutável ela é. 

Nessa ordem de idéias, pode-se declarar que a interpretação do Brasil que ele nos lega é polivalente e contraditória, tal a gama de elementos que a compõem. 

"A formação brasileira, ensina Gilberto, tem sido um processo de equilíbrio e de antagonismos. Antagonismos de economia e de cultura. A cultura européia e a indígena. A européia e a africana. A africana e a indígena. A economia agrária e a pastoril. A economia agrária e a mineira. A católica e a herege. 

O jesuíta e o fazendeiro. O bandeirante e o senhor de engenho. O paulista e o emboaba. O pernambucano e o mascate. O grande proprietário e o pária. O bacharel e o analfabeto. Mas predominando sobre todos os antagonismos, o mais profundo, o senhor e o escravo." 

Há, convenhamos, talvez, um certo exagero nessa elevação da problemática da escravidão, como sendo, ainda hoje, um elemento essencial à compreensão da alma brasileira. No fundo, Gilberto Freyre é um pernambucano falando em nome do Brasil. E muito daquilo que ele expressa como razão de ser do Brasil inteiro, às vezes, a meu ver (é uma crítica que faço com toda reserva) mais cabe ao Nordeste. 

Mas o importante é que em Casa-Grande & Senzala nós temos uma visão realista da sociedade colonial. Faltando mulheres brancas, as mulheres negras ocuparam o cenário. Havia uma vida sexual inegavelmente condicionando o relacionamento social. Além do grande apetite sexual do senhor de engenho, tinha ele à sua disposição a doçura das escravas. E Gilberto Freyre se compraz (é a palavra certa) na descrição dos costumes vigentes no Brasil, na época, mostrando quanto eles importaram na criação de hábitos e formas de vida de caráter permanente. 

Não é demais insistir que tudo isso é mostrado graças a uma linguagem viva, plástica e dialética. O grande poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto dizia: "Sou poeta, mas se algum dia me pusesse a escrever, escreveria no estilo de Gilberto Freyre", que não tinha medo de repetir as palavras, porque o sinônimo pode ser uma traição. Ao contrário, ele amava as palavras precisas, aquelas que vêm como que ao encontro da realidade subjacente. 

A esta altura de minha palestra, cumpre-me esclarecer que não me será possível examinar todas as obras de Gilberto Freyre. É claro que eu não posso tratar aqui, por exemplo, da sua Sociologia, de 1945, mas me baseio também no livro que ele mesmo dedicou à interpretação do Brasil, em uma tentativa de fundir vários aspectos psico-sociais de nossa gente. 

As três obras fundamentais que ele escreveu, formam, no seu todo, um complexo que se poderia intitular Introdução à história da sociedade patriarcal brasileira. São três livros que lhe ocuparam a vida inteira, como se demonstrará lembrando a data de sua publicação. Casa-Grande & Senzala é de 1933, podendo-se dizer que, enquanto a escrevia, focalizando o relacionamento do senhor de engenho com todos vassalos que circundavam a casa-grande, ia ele fazendo anotações para a segunda obra: Sobrados e Mucambos, publicado em 1936, portanto três anos após. Ia durar muito a publicação da outra obra final, Ordem e Progresso, que é de 1957. 

Merece atenção, desde logo, uma singularidade. Notem a polaridade dos títulos dessas obras: Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos, Ordem e Progresso, porque a realidade social, dizia Gilberto Freyre, não é una, fluente e determinada, mas é toda cheia de contradições e polaridades. 

Lembra ele Hegel para mostrar que o princípio de polaridade é essencial para compreensão da vida humana, que na realidade vem se revelando através de contrastes e confrontos, sendo o maior deles o que se refere ao binômio fundamental: "natureza e cultura". 

Tudo se resume, no fundo, a descobrir a relação que existe entre a natureza e homem, tendo como resultado uma atitude cultural. Pode-se dizer (e vai aqui uma certa compreensão pessoal) que ele é um culturalista avant la lettre. Mas se trata de um culturalismo no qual é dado maior peso à natureza, que condiciona a vida humana, porque dizia ele, "no fundo a casa-grande e a senzala constituíam algo de harmonioso ditado pelo ambiente, e pelos imperativos da geografia tropical". 


Miguel Reale

Compilado em 21/10/2001
Fonte: Buscas na Internet

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