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Artigos de Miguel Reale
Pluralismo da cultura brasileira
Sábado, 17 de março de 2001
De todas as notas características que têm sido aduzidas nos estudos até agora realizados visando a determinar os valores próprios da cultura brasileira, nenhuma me parece tão compreensiva como a do pluralismo que está na raiz de nossas condições mesológicas, étnicas e históricas. Somos substancialmente uma sociedade plural que somente pode ser compreendida mediante uma série de fatores e circunstâncias que se interligam de maneira complementar e dinâmica.
O fato que mais eloqüentemente demonstra a multifacetada estrutura de nosso ser nacional são as sucessivas chegadas à nossa terra de levas e levas de imigrantes, desde a descoberta, cada qual com a sua língua, seus usos e costumes, sua forma especial de vida, que vieram lentamente se mesclando, a começar da longa fase colonial, quando se elaborou um amálgama cultural constituído pelas contribuições ameríndias, portuguesas e africanas, que se tornaria o cerne, ou, por melhor dizer, o núcleo referencial da nação brasileira.
É por essa razão que, quando se indaga do sentido de nossa cultura, se presta mais atenção aos três séculos iniciais de nossa história, por neles ter ocorrido a primeira e fundante assimilação de fatores diversos e até mesmo contrapostos, até o ponto de condicionar, depois, a recepção das imensas correntes imigratórias que aqui aportaram no fim do século 19 e no início do século 20.
Nos dois artigos anteriores que dediquei, nesta mesma página, à poderosa influência exercida pelas "grandes imigrações" no evolver da cultura nacional, fiz questão de realçar que elas vieram implantar novas formas de vida e de convivência, tendo dado maior relevo às duas correntes imigratórias, a italiana e a alemã, que mais profundamente modificaram nosso "sistema de trabalho", com o fenômeno do colonato em São Paulo e a exploração da pequena propriedade no Sul, salientando eu que ambas aceleraram nosso processo de urbanização e industrialização.
Foi devido a esse predominante enfoque na apreciação do processo imigratório que não fiz referência a importantes imigrações de outra procedência, cuja contribuição foi imensamente significativa, como a dos libaneses, sírios, japoneses e poloneses. Ainda está por escrever a história da imigração no Brasil, com base em dados estatísticos confiáveis, e com a análise dos elementos caracterizadores de cada uma de suas componentes, as quais não podiam deixar de alterar o modo de ser, material e psicológico, de nossa gente.
O que não podemos, no entanto, deixar de observar é que o cerne luso-afro-ameríndio colonial, aperfeiçoado com o advento da Independência, tinha adquirido robustez bastante até o ponto de poder receber o forte impacto das levas imigratórias, sem comprometer a linha essencial de desenvolvimento de nossa sociedade, condicionando um processo de conciliação e assimilação que teve na unidade da língua portuguesa um de seus fatores determinantes. Tenho dito e repetido que a base de nossa unidade cultural foi o idioma de Camões, o qual acabou prevalecendo sobre o tupi-guarani, que foi a fala dominante do povo, em São Paulo, por muitíssimo tempo. Sendo a língua a raiz da cultura, no sentido antropológico e geral desse termo, nunca será demais realçar sua decisiva participação no processo formador de nossa sociedade, explicando-se por que motivo nos consideramos uma nação latina, expressão esta que não representa, absolutamente, como desavisadamente se disse, a apologia da pretensa branquitude de nossa população, mesmo porque os nossos brancos abrangem latinos, germânicos, árabes, judeus, anglo-saxões e eslavos.
O fenômeno lingüístico auxilia-nos sobremaneira a compreender que a diversidade das fontes formadoras de nossa gente não impede que haja uma unidade fundamental que não encontrou obstáculo na cor da pele, nem na diversidade de usos e costumes, o que explica o seu dinâmico sentido de complementaridade numa unidade plural.
Pois bem, o pluralismo, até aqui examinado mais sob o ponto de vista étnico, é também uma realidade impressionante no plano geográfico e ecológico.
Enquanto os Estados Unidos da América se estendem longitudinalmente, por sinal que numa impressionante seqüência de terras férteis, o Brasil é, em sua essência, um país vertical, que se projeta do Sul ao Norte numa estonteante diversificação de climas e de qualidades do solo. Nada mais errôneo do que só se falar em dois Brasis, um do litoral e outro do sertão, quando o que existe é uma multiplicidade de Brasis dispersos nas cinco regiões geográficas oficialmente consagradas, mas não correspondentes a apenas cinco realidades sociais fundamentais.
O que desde logo impressiona, não há dúvida, é a diferença marcante entre o Sul e o Sudeste, de um lado, e o Nordeste, do outro, não apenas como qualidade diversa do solo e do clima, mas até mesmo de mentalidade, devida, em grande parte, à falta de participação dos imigrantes que povoaram as regiões sulinas, infundindo a estas maior tendência psicológica à aventura da livre iniciativa, com resistência maior ao patrimonialismo que tem sido a desventura do Estado no Brasil.
Tais diferenças político-sociais e econômicas não se devem a características raciais, pois estão aí, em grande número, exemplos de nordestinos que no Sul e no Sudeste se convertem em exemplo de arrojados empresários, compondo a elite do progresso nacional. Ademais, sob o impacto da nova tecnologia e dos planos de desenvolvimento, o Nordeste vem vencendo, nas últimas décadas, as adversidades da natureza, a qual, no dizer de José Américo de Almeida, é lá menos mãe do que madrasta.
Por outro lado, não se esqueça a notável vis atrativa de Brasília, que, mais do que uma nova criação urbanística, representa uma solução nacional, por ter projetado para o interior o epicentro do poder governamental, cooperando, assim, para o surto de um novo bandeirismo, não em busca de ouro e esmeraldas, mas da cultura da soja, do milho e do algodão. O País plural vai, desse modo, se revelando e se unificando, mesmo porque o Oeste e o Centro Oeste recebem massa de imigrantes do Sul e do Sudeste, levando consigo formas de vida herdadas dos antepassados europeus.
Como se vê, é somente com sentido de pluralidade, numa linha essencial de continuidade histórica, que se pode começar a entrever a tão procurada identidade nacional no variegado cenário de nossa cultura.
Miguel Reale, jurista, filósofo, membro da Academia Brasileira de Letras, foi reitor da USP E-mail: reale@miguelreale.com.br Home page: www.miguelreale.com.br
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