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Armas e revolução passiva

17/06/1999

Autor: OLAVO DE CARVALHO . . 4069art2Editoria: OPINIÃO

Página: 1-3 6/5954Edição: Nacional Tamanho: 5862

caracteres Jun 17, 1999Seção:

TENDÊNCIAS/DEBATESObservações: PÉ BIOGRÁFICO

Armas e revolução passiva Nenhuma inteligência sã pode

aceitar discutir, a sério, se a proibição da venda de

armas ajudará a reduzir a criminalidade OLAVO DE

CARVALHO Se os meios de produção constituem o critério

econômico da divisão de classes, o fator que assegura

a uma classe o seu papel dominante na sociedade não é

a posse deles, e sim a dos meios de destruição. Eis

por que as revoluções que têm por meta nominal a

mudança da estrutura econômica não tomam nunca por

alvo prioritário a conquista das fábricas e dos

bancos, mas sim a das instalações militares. Não a da

riqueza, mas a das armas que a garantem. Nenhum

materialista histórico esteve jamais embriagado de

economicismo a ponto de negar essa obviedade.Se nos

períodos de paz e normalidade a riqueza financeira é

um meio importante de conquistar e conservar o poder,

nos de desordem e violência só um tipo de riqueza

importa: a posse das armas. Nessas horas, mais pode o

pobre armado do que o rico desarmado.A lei que confere

o monopólio da posse de armas a certas categorias de

cidadãos representa, portanto, nada menos que uma

revolução, o estabelecimento de um novo critério de

estratificação social, de uma nova divisão de classes.

Doravante, o povo brasileiro estará dividido em duas

castas _os armados e os desarmados. Ao mais mínimo

abalo da ordem cotidiana, essa distinção se mostrará

mais decisiva, na prática, do que aquela que separa os

pobres e os ricos, os letrados e os iletrados, os

famosos e os anônimos.Eis por que nenhuma inteligência

sã pode aceitar discutir, a sério, se a lei de

proibição da venda de armas ajudará ou não a reduzir a

criminalidade. Ela não tem rigorosamente nada a ver

com a diminuição da criminalidade, e é impossível que

seus autores, todos versados em Marx, Gramsci e até

Weber, não saibam disso. O combate à criminalidade é

apenas o pretexto publicitário para fazer o povo

aceitar, com plena inconsciência de seus efeitos, a

mutação mais profunda e mais violenta que a sociedade

brasileira já sofreu ao longo de toda a sua história.

Que transformação tão drástica possa ser impingida

pacificamente ao país enquanto os olhos da opinião

pública estão desviados para discussões laterais _eis

a manifestação vivente da "revolução passiva"

preconizada por Gramsci, entre cujos seguidores se

encontram o governador Anthony Garotinho, o dr. Carlos

Minc, os próceres todos da campanha "Rio Desarme-se"

e, "last but not least", o sr. presidente da

República.E, se coisa de tal monta não foi assinalada

por nenhum observador num país que detém talvez o

recorde mundial de cientistas sociais "per capita", é

porque estes se dividem em duas categorias: os que não

são capazes de percebê-la e os que, por desejá-la

ardentemente, torcem para que ninguém mais a perceba.

A revolução passiva é dita passiva precisamente porque

não dói nem chama a atenção, mas vai penetrando

insensivelmente, centímetro a centímetro, como a

lâmina num tecido previamente anestesiado. A divisão

do país entre os armados e os desarmados pressupõe uma

outra, anterior, que a condiciona: a divisão dos

brasileiros entre os gramscianos e os otários.Entre os

primeiros, o mais "soft" e, portanto, o menos

desonesto é o sr. presidente da República, o qual,

numa mensagem para os raros bons entendedores,

reconheceu que, como instrumento para o combate ao

banditismo, a nova lei é apenas "simbólica".

Evidentemente, não ocorreu a nenhum dos demais

perguntar-lhe por que uma lei simbólica tinha sido

encaminhada ao Congresso em regime de urgência nem se,

considerada como instrumento para alguma finalidade

totalmente diversa, a nova lei não teria algum efeito

menos simbólico e mais direto.Que essa finalidade nada

tem a ver com o controle do banditismo é a coisa mais

óbvia do mundo. Cassar uma autorização só afeta quem

precisa dela, e nenhum quadrilheiro esperou jamais

autorização do Estado para usar armas. Ademais, todas

as armas em posse do crime organizado já são ilegais,

sendo inócuo colocar fora da lei o que nunca esteve

dentro dela. Mas o efeito nulo que a proibição terá

sobre todos os grupos que, por sua natureza, já atuam

voluntariamente fora da lei (inclusive os bandos de

guerrilheiros rurais) contrasta dramaticamente com a

profundidade e a amplitude da mudança que ela

desencadeará sobre a vida de todos os demais

brasileiros, de todos os brasileiros que querem viver

dentro da lei.Essa mudança pode-se enunciar da maneira

mais simples: aprovada a nova lei, haverá uma nova

sociedade no Brasil, com novos dominadores e novos

dominados. O mais rico dos brasileiros poderá

contratar um segurança, mas não se defender dele se

ele decidir, de repente, passar para o lado dos

sequestradores. O dinheiro será impotente, o prestígio

será indefeso, a autoridade moral se tornará o

discurso risivelmente inofensivo dos profetas

desarmados: o único meio de acesso ao poder será

ingressar na polícia, nas Forças Armadas ou numa

quadrilha de traficantes.E a nova classe dominante não

terá somente o monopólio dos meios de matar, mas

também o da seleção de seus próprios membros: quem

aceita ou rejeita um candidato a policial é a polícia;

um candidato a quadrilheiro, a quadrilha. Por sua

constituição mesma como monopolista (e monopolista da

única força decisiva), a classe dos novos senhores

será mais fechada, mais exclusivista e mais

corporativista do que todas as suas antecessoras. E, o

que é infinitamente mais grave, não haverá entre quem

tem e quem não tem poder os graus intermediários que

hoje matizam as diferenças hierárquicas: ao contrário

do que acontece com o dinheiro, o poder político e a

fama, que podem vir em quantidades maiores ou menores,

entre o armado e o desarmado nenhum meio-termo é

concebível. Olavo de Carvalho, 52, jornalista e

escritor, é autor de "O Jardim das Aflições'' e de "O

Imbecil Coletivo". Home page:

Compilado em 22/11/2003
Fonte: Buscas na Internet

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