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A Submersão dos Emergentes Roberto Campos Folha de São Paulo

A Submersão dos Emergentes
Roberto Campos
Folha de São Paulo - Setembro de 1998

A sucessão recente de crises - a mexicana, a asiática e a russa – está ressuscitando um velho esporte - a busca de bodes expiatórios. O bode na moda é a "globalização", como antes eram o imperialismo ou o capitalismo.

Isso leva muita gente a esquecer que, no balanço de vantagens e desvantagens da globalização, o saldo é positivo. Nunca tantas pessoas e países saíram tão rapidamente da miséria como na era da globalização. Par dobrar a renda nacional, a Inglaterra levou 58 anos (a partir de 1780), os EUA, 47 anos (a partir de 1839), o Japão, 33 anos (a partir de 1880), enquanto que recentemente a Indonésia levou 17 anos, a Coréia do Sul, 11 anos, e a China, 10 anos.

Uma segunda vantagem é que a competição global de preços facilita a morte da inflação, que é a maior das justiças sociais. Uma terceira é a possibilidade de saltos industriais e tecnológicos, inconcebíveis em economias fechadas. A difusão tecnológica de um lado aumenta a produtividade e, de outro, beneficia o consumidor: o automóvel global do Brasil de hoje é mais atraente que as carroças pré-globalização.

Uma quarta é a multiplicação de fontes de financiamento, pelo surgimento de novos atores, como os fundos de pensão e os fundos mútuos de investimento, além de uma enorme expansão de investimentos diretos.

Nem é lícito dizer que a globalização seja uma fábrica de crises. Os dois maiores colapsos da história recente aconteceram em economias não-globalizadas. Primeiro, a Grande Depressão dos anos 30, quando o mundo se fechava atrás de barreiras protecionistas, os governos controlavam rigidamente o câmbio e o movimento de capitais e a palavra de ordem era a auto-suficiência. Depois, o colapso do socialismo, regime que preferia o comércio estatal entre blocos ao livre câmbio multilateral e no qual o movimento de capitais dependia de decisões burocráticas.

Como não há rosas sem espinhos, a globalização traz bastante desconforto e alguns perigos. O desconforto é a redução da margem tolerável de erro nas políticas governamentais. Déficits fiscais e sobrevalorização cambial colocam os governos sob suspeita; e a punição pode vir rápida por meio da fuga ou interrupção do ingresso de capitais. O segundo é a redução do poder de controle dos bancos centrais, que se vêem diante de novos atores financeiros (fundos mútuos de investimento e fundos de pensão) e de constantes inovações, que complicam o controle bancário (securitização e derivativos).

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A tarefa das autoridades brasileiras, nesta hora de turbulência, é diferenciar e singularizar a situação do Brasil no bloco dos emergentes (ou na "retaguarda incaracterística", como dizia o poeta A. F. Shmidt nos tempos de Juscelino). Isso exige um balanço objetivo e sincero das "áreas de vulnerabilidade" e dos "fatores de resistência". Os pontos negativos para o Brasil são os déficits gêmeos - fiscal e cambial - e o endividamento de curto prazo. Na escala de malignidade, o pior é o déficit fiscal, pois indica que o governo despoupa, oprimindo o setor produtivo privado. Mas há fatores de resistência - o estoque de reservas cambiais; a consistência da política econômica, que pode ser acusada de lentidão, porém não de incorreção de rumo e objetivos; o elenco restante de empresas privatizáveis (eletricidade e petróleo, principalmente); a estabilidade democrática; o sucesso na luta contra a inflação; a atratividade para investimentos estrangeiros diretos; e a perspectiva de continuidade administrativa, com a provável reeleição de FH.

A inadequada percepção desses "fatores de resistência" é que tem levado
alguns analistas internacionais a equipararem Brasil, Venezuela e Rússia como candidatos à bola da vez. Mas as diferenças são palpáveis. Venezuela e Rússia sofrem com a queda de preços de petróleo, coisa vantajosa para o Brasil; ambas tem, como nós, déficits fiscais altos e baixa taxa de crescimento, mas reservas cambiais muito inferiores; as privatizações brasileiras são mais promissoras e melhor conduzidas do que as dos outros emergentes; e, last but not least, aqueles países sofrem de instabilidade política, a Rússia com Yeltsin sob ameaça de impeachment, e a Venezuela com o candidato presidencial favorito ameaçando moratória.

Tanto ou mais perturbadora que a globalização econômica é globalização semântica, que desperta na finança internacional um "instinto de manada" e dificulta a apreciação das diferenças. Quando comecei minha carreira de jovem diplomata na ONU, falava-se nos "países atrasados"; depois nos "países pobres"; subseqüentemente, evoluímos para "países subdesenvolvidos", "países em desenvolvimento" e, finalmente, países de "industrialização recente".

Agora somos "emergentes", o que para os otimistas transmite a imagem de ascensão e, para os pessimistas, a possibilidade de submersão.

Compilado em 19/10/2001
Fonte: Buscas na Internet

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