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Ainda a crise asiática
Roberto Campos
13/9/98
Desde os anos 70, as crises financeiras internacionais têm provocado discussões de muitos decibéis. Por que não são previstas? Afinal, as informações relevantes sobre as finanças dos países estão mais ou menos ao alcance de todos e são minuciosamente reviradas por analistas, bancos, governos e organismos internacionais. E, diferentemente do que se verifica no plano dos negócios privados, onde o credor sempre conta com meios legais de executar o devedor, a inadimplência dos Estados soberanos chama-se, elegantemente, em inglês, "moral hazard"...
Há, naturalmente, uma variedade de razões pelas quais os países deixam de poder pagar o que devem, como, por exemplo, perdas nos termos de trocas, quedas nos preços ou quantidades de exportações, pileques na importação.
A recessão mundial de 80-82 teve todos esses efeitos e foi uma das causas da crise que começou no México, no final desse período. Pode dar-se o caso, também, de que os países se endividem demais (por exemplo, por conta de investimentos mal projetados ou mal administrados) ou de pressões de importação causadas por inflação, ineficiências do setor produtivo interno e crescimento populacional. E, às vezes, há emergências, tais como quebras de safras e desastres naturais.
Paul Krugman, o "enfant térrible" do MIT, que gosta de cutucar idéias estabelecidas, e que, entre outros feitos, previu, em 1994, que o "milagre asiático" não deveria durar muito, reduz a apenas duas as explicações relevantes da crise. Uma delas, ligada ao economista Jeffrey Sachs, de Harvard, considera tratar-se de uma versão moderna, high-tech e multicultural do velho fenômeno dos pânicos financeiros, uma história conhecida: 1873, 1893, 1907, 1931 (a crise nas Bolsas começa em outubro de 29). Esses pânicos acontecem quando os aplicadores, a começar pelos intermediários financeiros, começam a suspeitar que os bancos de uma região estejam ficando ilíquidos _isto é, que não vão pagar a todos e que, portanto, os que se atrasarem ficarão segurando o mico.
Mas, nota Krugman, isso não explica tudo. Por exemplo, a crise começou na Tailândia, a mais fraca das economias da região. Mas corrida bancária, no duro, só viria a ocorrer depois, na Indonésia. Pânico houve, de fato, porém não por geração espontânea. Houve uma acumulação de más práticas financeiras privadas, políticas governamentais equivocadas, falta de transparência nas informações oficiais e surpreendentes erros de apreciação, tanto por parte dos principais protagonistas quanto de analistas financeiros. A começar pelo FMI que, nas vésperas do desastre, ainda se desmanchava em elogios às virtudes desses países asiáticos.
Está sendo penoso para o FMI, neste momento, ver-se na desconfortável situação de pau de galinheiro, simultaneamente, para direitas e esquerdas, por não ter reconhecido os sinais precursores da inadimplência iminente. E depois, na opinião de Sachs e outros economistas respeitáveis, por ter receitado o remédio errado e em dose recessiva. Na realidade, desde meados de 97, o FMI, que liderou a resposta oficial internacional, jogou a responsabilidade da situação sobre as deficiências do capitalismo asiático, sobretudo quanto aos mercados financeiros, recomendando uma reestruturação do setor no caso dos três mais atingidos: Indonésia, Coréia e Tailândia. Mas essa explicação não dá conta de alguns dados importantes.
Durante perto de três décadas, as economias da região tiveram um desempenho notável, ao ponto de se falar num "milagre asiático". Além disso, a crise foi, em grande parte, imprevista: nem mesmo os que perceberam sinais de perigo chegaram a imaginar as dimensões que tomaria. Até o início da crise, os capitais estrangeiros continuavam a inundar essas economias: os fluxos privados para Coréia, Indonésia, Malásia, Tailândia e Filipinas cresceram de US$ 40,5 bilhões, em 1994, para US$ 90,8 bilhões em 96, invertendo-se, porém, bruscamente, em 1997, com uma saída líquida de US$ 12,1 bilhões. Assim, a diferença de fluxos (o que deixou de entrar mais o que saiu), entre 96 e 97, foi de US$ 105 bilhões, cerca de 11% do PIB desses países antes da crise.
O comportamento do FMI parece ter sido induzido pela sua experiência dos problemas latino-americanos, desde a inadimplência do México, em 1992: descontrole dos gastos públicos, baixa poupança, tendências inflacionárias renitentes (no desespero, apelando para mágicas "heterodoxas"), ameaças de ocasional instabilidade política. Em resumo, os governos do continente não gozavam de grande reputação de responsabilidade.
O panorama asiático era percebido como o exato oposto disso: a era do "milagre econômico", em vez da "década perdida" latino-americana. Boa gestão macroeconômica, níveis altos de poupança doméstica, baixa inflação, vocação competitiva, orientação exportadora.
Na realidade, os problemas se originaram no setor privado mais que no setor público. Naturalmente, esse último não estava isento de pecados. Toda a gente sabia do "capitalismo de cupinchada" e da corrupção vigentes nesses países. Só que muitos davam de barato que isso não passava de peculiaridades culturais asiáticas, e que a falta de transparência desses mercados não lhes atrapalharia o desempenho.
Interferiram, também, fatores externos fora do controle desses países: o esmorecimento das exportações, resultante em parte da prolongada estagnação da economia japonesa nesta década; contrações em mercados específicos, como o de semicondutores; a concorrência cada vez mais agressiva da China; a valorização do dólar em relação ao iene e às moedas européias (a maioria dos países asiáticos estava efetivamente amarrada ao dólar), e por fim, a contração monetária americana de meados de 1997, que pode ter ajudado a precipitar os acontecimentos.
É interessante observar-se que, embora os déficits externos desses países fossem geralmente percebidos como saudáveis pelos observadores estrangeiros, porque decorriam de elevadas taxas de investimento, a rentabilidade dos projetos vinha caindo. E antes da crise a parcela de empréstimos não saldados ("non performing loans") já havia chegado, na Tailândia, na Indonésia e na Malásia, a mais de 15%. Na Coréia, para 20 dos 30 grandes conglomerados ("chaebol"), o retorno dos investimentos caíra abaixo do custo do capital. Em meados de 97, oito deles estavam efetivamente falidos.
Os bancos privados da região estavam habituados a tomar excessivamente no exterior e a emprestar também excessivamente no âmbito doméstico. Junte-se a isso supervisão frouxa e regulamentação inadequada do setor financeiro.
Krugman, Cosetti, Pesenti, Roubini e outros especialistas supõem que, no caso dos países asiáticos, os investidores estavam mais ou menos embalados pela ilusão de que existia uma garantia implícita de que os governos não deixariam os tomadores de recursos chegar realmente à inadimplência. Teria sido, pois, um engano "cultural", digamos assim.
O FMI montou operações de salvamento da ordem de mais de US$ 100 bilhões, o que não impediu críticas ao fato de o Fundo ter forçado os países assistidos a aplicar remédios geralmente considerados recessivos, a começar pelo aumento da taxa de juros, acelerando a inadimplência, em vez de entrar com recursos para normalizar as expectativas de solvência e acalmar os credores. Há uma ponta de razão nessas críticas, uma vez que as dificuldades decorriam sobretudo do comportamento do setor privado, tanto financiadores quanto mutuários, não de déficits e ou excessivo endividamento do setor público. Operações sem suficiente margem de garantia (por exemplo, nas especulações imobiliárias) teriam de desembocar, um dia, em inadimplência.
Krugman, cujas preferências um tanto keynesianas o tornam insuspeito de um culto deslumbrado do mercado, é otimista em relação à Ásia, porque acha que os ativos já estão lá tão baratos, que os investidores voltarão à cena atrás de pechinchas. Não parece que tenhamos chegado ao ponto de uma "falência generalizada dos órgãos", como aconteceu, por irracionalidade e precipitação dos governos, em 1929-33.
Roberto Campos, 81, economista e diplomata, é deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro. Foi senador pelo PDS-MT e ministro do Planejamento (governo Castello Branco). É autor de "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks, 1994).
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